A delicada arte de investigar subjetividades

Eliana Louvison

A teoria psicanalítica destina um vasto campo de conhecimento à compreensão da constituição da subjetividade tendo como tese a ideia de que essa construção se dá através de saltos qualitativos provocados e promovidos pelas trocas intersubjetivas. Esse interesse inicia-se com Freud e se estende com os pós-freudianos de diferentes correntes de pensamento, especialmente com a teoria lacaniana.

De crise em crise, independente da ordem cronológica, o aparato psíquico vai sendo construído e uma sofisticada e frágil montagem vai se organizando.  Desde Freud essas crises foram identificadas e nomeadas, assim como, conhecidas as aquisições psíquicas necessárias, porem nem sempre suficientes, para garantir o sucesso dessa empreitada.

Hoje, já se sabe quais são as condições que favorecem e as que ameaçam a constituição da subjetividade. Na falta dessas aquisições é que se apoia a ideia de que uma criança possa vir a ter problemas e dificuldades em seu desenvolvimento psíquico.

Para ter acesso a constituição da subjetividade, seus efeitos e consequências, os psicanalistas, psicólogos e educadores não têm a seu  dispor radiografias, ultrassons, ressonâncias magnéticas e muito menos PETSCAN. Não podemos nos sustentar na ilusão de que sabemos o que se passa no interior do sujeito. Nosso trabalho é baseado na angustia, na incerteza, no devir. Contamos com o olhar e a escuta que decifra e interpreta, e muito pouco conclui.

Mas, dispomos de método e instrumentos que, uma vez bem aplicados permitem que tenhamos acesso à subjetividade.  Para diferentes momentos da construção da subjetividade temos diferentes campos para a observação, escuta e investigação.

A escuta, pautada pela angústia e pela transferência, se dá de forma diferente em função dos recursos de cada idade:

– No adulto, através da palavra, dos sintomas e do sofrimento psíquico podemos vir saber sobre a história e os impasses de sua constituição subjetiva.

– Do nascimento até os 18 meses, a relação mãe/bebe é o espaço por excelência onde as manifestações subjetivas ganham contorno, expressão e visibilidade, e através de uma observação orientada podemos identificar fatores de possibilidades e de risco para o desenvolvimento psíquico.

– Após aquisição da linguagem e acesso ao mundo simbólico, o campo da palavra, das brincadeiras, dos desenhos e do faz de conta, é valioso para a investigação das manifestações subjetivas que revela o que se passa com esse filhote, candidato a sujeito.

Dispomos também dos testes padronizados, quer sejam os projetivos ou os inventários de personalidade que são construídos com o objetivo de auxiliar no diagnóstico de patologias e investigação de conflitos e dificuldades no desenvolvimento.

Os procedimentos projetivos, de forma lúdica e criativa ou de forma sistemática, podem ser utilizados transicionalmente nas entrevistas clínicas. Possibilitam uma forma especial e sofisticada de diálogo que além de promover a acesso aos determinantes afetivos-emocionais do sofrimento psíquico, propicia a emergência de novos sentidos.

Através da observação, da escuta, e de testes destinados a esse fim podemos discriminar, através de avaliações sistemáticas, a existência de dificuldades de ordem psíquica que estão interferindo no desenvolvimento da criança e a presença de indicadores que apontam em direção a psicopatologias graves na infância.O psicodiagnóstico em psicanálise dispensa os paradigmas psicométricos das técnicas de avaliação, mas não prescinde da compreensão provisória, mas necessária, de como um indivíduo organiza sua subjetividade e que, definem a direção e a escolha das estratégias mais adequadas e eficazes de tratamento psicoterápico.

Artigos

O jogo, uma forma de acesso ao inconsciente, sua importância diagnóstica na infância.

Ana Maria Sigal

“Já contava Politzer (1928), que um pai supostamente muito justo, comprava sapatos de um só numero para todos os seus filhos, de idades e tamanhos bastante diversos. A mesma técnica psicanalítica, oferecida em situações psicopatológicas e vivenciais muito diversas, pode resultar num incomodo calçado largo ou em torturante aperto dos pés…”

Diagnóstico Estrutural de Personalidade em Psicopatologia Psicanalítica

Tânia Maria José Aiello Vaisberg
Maria Christina Lousada Machado

“Nosso interesse em elaborar ou solicitar um diagnóstico, sejamos psicoterapeutas, psicanalistas, médicos, fonoaudiólogos ou educadores é o de abordar os processos que tecem a malha dinâmica da complexidade do indivíduo sempre com a ideia de abrir, de analisar, e não como modo de sintetizar.”