Neuropsicologia e Neurociências – Duas ciências que se unem para compreensão do desenvolvimento humano

Cristiane Bauab

A Neurociência é o conjunto de disciplinas que tem como foco o estudo do sistema nervoso e a busca das bases cerebrais da mente humana. Entre neurocientistas, há profissionais das áreas de Farmácia, Bioquímica, Biologia, Psicologia, Medicina, Economia e outras tantas que juntas revelam a complexidade do desenvolvimento humano e buscam explicar como a cognição e a consciência humana nascem das atividades do cérebro.

A Neuropsicologia é um ramo da psicologia que, considerando as variáveis biológicas, socioafetivas e culturais, se une à neurociência para estabelecer as relações entre o funcionamento do sistema nervoso, especialmente o cérebro, com as funções cognitivas (linguagem, memória e percepção), e a expressão comportamental, tanto nas suas condições normais quanto nas patológicas.

Conforme salientado por Kolb e Wishaw (1995), mesmo sendo uma disciplina científica recente, o desenvolvimento dos pilares da Neuropsicologia ocorreu ao longo de vários séculos, partindo da busca pela compreensão sobre a relação entre o organismo e os processos mentais, até o estágio atual em que buscamos compreender como o sistema nervoso modula nossas funções cognitivas, comportamentais, motivacionais e emocionais.

Segundo o Manual de Neuropsicologia (2012), o termo “ neuropsicologia” parece ter sido introduzido pelo médico canadense William Osler, em 1913, com um sentido um pouco diferente da maneira como é entendido hoje, e foi redefinido por Luria como sendo “a ciência da organização cerebral dos processos mentais humanos, que tem como objetivo específico e peculiar investigar o papel dos sistemas cerebrais nas formas complexas de atividades mentais”. Na modernidade, portanto, e segundo Luria, a neuropsicologia é a ciência que estuda a expressão comportamental das disfunções cerebrais. Logo, trata-se de uma disciplina que aborda as relações entre funções cerebrais e comportamento.

As aplicações da neuropsicologia vem crescendo significativamente, na medida que progridem os conhecimentos sobre a mesma. Frequentemente, de natureza multiprofissional, é aplicada tanto na área de pesquisas como na área clínica. O desenvolvimento da prática clínica vem contribuindo de maneira relevante para o tratamento de doentes neurológicos de todas as idades.

O neuropsicólogo atua, principalmente, na avaliação das funções cognitivas, por meio da utilização de exames neuropsicológicos, e na reabilitação neuropsicológica das consequências de disfunções do sistema nervoso. Essas disfunções podem estar relacionadas ao desenvolvimento anormal do sistema nervoso, como por exemplo, transtorno do déficit de atenção/hiperatividade, esquizofrenia, dislexia, ou ser adquiridas ao longo do curso da vida, por traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral ou demências.

A avaliação neuropsicológica, assim como a prática da psicologia clínica, tem como elemento fundamental a observação que perdura durante todo o processo diagnóstico. A diferença entre as duas práticas está apenas nos elementos que devem ser observados para que se possa compreender o funcionamento afetivo e neuropsicológico da pessoa avaliada. Durante a entrevista inicial e, posteriormente, na aplicação dos instrumentos de avaliação, a observação do modo como o paciente trabalha, pode ser fundamental para um bom diagnóstico neuropsicológico diferencial. Para cada instrumento aplicado, existem dados de observação que auxiliam na avaliação qualitativa.

A entrevista psicológica é uma técnica indispensável para a compreensão da queixa e dos sintomas a ela associados que determinarão as hipóteses diagnósticas para posteriormente ser feita a escolha dos instrumentos (testes) que serão utilizados para a avaliação das funções cognitivas.

Dentre as funções cognitivas avaliadas, estão as habilidades de raciocínio (funções intelectuais, ou quociente intelectual), que envolvem a capacidade de conceituação, abstração, cálculo, leitura, escrita e informação geral adquirida.

O processo atencional é investigado desde o início da avaliação. Neste é verificado o foco da atenção, como o paciente realiza a busca visual, como se concentra em tarefas de maior duração, se permanece concentrado quando é introduzido um estímulo distrator.

Nas vias de comunicação, depois de verificados os sistemas sensoriais, é verificado o processamento cortical. É importante avaliar a percepção visual envolvendo a discriminação de detalhes, análise de contexto e noção de profundidade, a destreza motora e a organização visuoconstrutiva.

A linguagem que envolve a nomeação de objetos, a compreensão e a fluência verbal, a memória que nos permite verificar o quanto a pessoa é capaz de aprender e reter uma informação nova, e as funções executivas que mostram a capacidade da pessoa elaborar estratégias, analisar mentalmente as possibilidades de uma ação, encontrar alternativas diante do insucesso e chegar a soluções
eficazes sem desistir, devem ser investigadas detalhadamente para se obter uma visão geral do funcionamento cognitivo. Dessa forma pode verificar se a hipótese diagnóstica se confirma ou se surgem novas dificuldades não previstas anteriormente. Somente quando uma dificuldade aparece repetidas vezes é que a hipótese é considerada válida e se adquire com maior segurança um diagnóstico baseado na consistência dos resultados, descartando momentos de cansaço, desmotivação ou eventos aleatórios e momentâneos.

A interpretação dos resultados obtidos no processo de avaliação não se baseia apenas na pontuação obtida nos testes. O raciocínio é sempre baseado no conhecimento detalhado das funções neuropsicológicas, das habilidades que cada teste investiga e quais as demais habilidades que ele aciona para sua execução. As funções neuropsicológicas são complexas e multimodais, reunindo toda uma rede neuronal na qual as habilidades correlacionam, requisitando outras funções para acontecerem.

Depois da análise e interpretação dos resultados, é feita a elaboração do relatório que constará também a sugestão dos encaminhamentos considerados necessários para cada caso.

Referências:

  1. Neuropsicologia Teoria e Prática – Daniel Fuentes; Leandro F.Malloy-Diniz; Candida H. Pires Camargo; Ramon Moreira Cosenza e colaboradores –  Artmed
  2. Neuriciências e Psicologia aplicadas à vida cotidiana – Elizeu C. Macedo; Paulo Ségio Boggio – Ed. Mackenzie
  3. Neurociência da Mente e do Comportamento – Roberto Lent – Ed. Guanabara Koogan
  4. Manual de Neuropsicologia – dos princípios à reabilitação – Leonardo Caixeta & Sandra Barboza Ferreira

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