O amplo universo da dificuldade em aprender

Maria Cecília Balthazar

Por que não desenvolve? O que acontece? Por que não aprende? Inúmeros pais, especialistas em educação, professores se fazem estas perguntas sem obter respostas satisfatórias, gerando inquietações, ansiedades, sofrimentos. Na outra ponta, um sujeito que padece e faz padecer quem os ama. Os pais, por vezes, sentem-se culpados, desinformados, incautos. O corpo docente e especialistas na escola não têm certeza do que se passa. O mal-estar permeia a todos, acompanhado do incômodo sentimento de impotência.

Atualmente, a neurociência se juntou à neurologia, pedagogia, psicopedagogia, psicomotricidade, terapia ocupacional, professores particulares, pedopsiquiatria ou psiquiatria para crianças, pediatria, hebiatria, na busca por respostas, por um diagnóstico preciso da etiologia desse sofrimento. Ainda está engatinhando, mas com firmeza a neurociência oferece grande contribuição para auxiliar as crianças e pessoas que exibem transtornos, distúrbios, dificuldades, problemas de aprendizagem.

É importante definir estes termos que são utilizados de modo aleatório, tanto na literatura especializada quanto na prática clínica e escolar para designar diagnósticos diferentes. Comportamentalistas preferem o termo distúrbio e os construtivistas parecem ser adeptos do termo dificuldade. Dificuldade – termo relacionado aos problemas de ordem psicopedagógica e/ou sociocultural, centrado mais na situação ou circunstâncias do que no aluno, pode ser remediado, frequentemente pode ser melhor resolvido com mudanças nesses fatores, sempre com uma perspectiva preventiva.

Distúrbio – termo vinculado ao aluno, sugerindo a existência de comprometimentos neurológicos em funções corticais específicas, aqui o olhar e a perspectiva são clínica, remediativa, reeducação e/ou reabilitação. A palavra distúrbio é traduzida como anormalidade patológica, por alteração da ordem natural, no caso de aprendizagem. Há um excesso aqui, no sentido da patologia, da busca biológica o que turva a visão do processo de uma aprendizagem que não ocorre dentro da norma, das expectativas. Causa de desadaptações escolares e baixo rendimento acadêmico. A causa do distúrbio de aprendizagem é uma disfunção dos circuitos cerebrais, conhecida ou presumida. É o termo que exige diagnóstico diferencial, cuidadoso e transdisciplinar, seus portadores são pessoas sem defeitos físicos, sensoriais, intelectuais e emocionais.

Transtornos de aprendizagem – Indicam um grupo de sinais e sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecíveis, associado na maior parte dos casos a sofrimento e inferência no funcionamento das funções do indivíduo. Estão assim classificados: transtorno específico da leitura, transtorno específico do soletrar, transtorno específico de habilidades matemáticas, transtorno misto das habilidades escolares, outros transtornos de habilidades escolares não especificados (transtorno não ligado à linguagem). De modo geral, são mais conhecidos e talvez mais estudados, a dislexia, a disgrafia, discalculia e disortografia.

Alguns autores acreditam que as dificuldades, em sua maioria, são resultantes de imaturidade ou uma leve disfunção neurológica, falta de oportunidade de aprendizagem ou superproteção, e que o contingente seria bem maior do que o já diagnosticado.  A autora Sara Pain (1981) considera a dificuldade para aprender como um sintoma que tem uma função positiva, tão integrativa como o próprio aprender e pode ser determinada por:

Fatores orgânicos: relacionados à neuroanatomia, neurofisiologia, funcionamento sensorial e sistema nervoso central. Fatores Específicos: relacionados ao sujeito, não passíveis de constatação orgânica, mas manifestam-se nas áreas da linguagem e da organização espacial e temporal entre outras. Fatores psicogênicos: relacionados ao medo inconsciente do saber, inibição, bloqueio retração intelectual do ego como defesa, trazendo uma diminuição das funções e do funcionamento das funções cognitivas. Fatores ambientais: relacionados às condições objetivas ambientes ou de seu entorno que podem favorecer ou dificultar as aprendizagens.

Já para a autora Alícia Fernandez, as causas das dificuldades de aprendizagem são externas à estrutura familiar e individual: é uma reação que afeta o aprender, mas não aprisiona a inteligência e surge do confronto entre o aprendiz e a instituição; internas à estrutura familiar e individual: é uma reação, um sintoma que traz inibição, afetando a dinâmica e as articulações entre corpo, inteligência e desejo, trazendo uma necessidade de desconhecer e, portanto, de não aprender; devido à estrutura psicótica: ocorrem em menor grau e devido à deficiência orgânica: a aprendizagem e seus desvios para Alicia Fernandez, compreendem não apenas a subjetividade, que estão relacionadas às experiências pessoais, aos intercâmbios afetivos emocionais, recordações e fantasias. São casos mais raros.

O autor Romero (1995) atribui as seguintes variáveis à dificuldade de aprendizagem: pessoais: hetegeneidade e /ou lesões cerebrais; ambientais: ambientes familiares e educacionais inadequados; combinação interativa dos dois tipos: situam-se diversas teorias, várias concepções de modelos de aprendizagem, enfatizando o ambiente, a responsabilidade da pessoa, como causa do distúrbio.

Podemos pensar em um mapa mental das causas da dificuldade de aprendizagem:

 

Para aprender bem

A aprendizagem bem-sucedida precisa da integridade e da integração das funções do sistema nervoso, principalmente o sistema nervoso central para armazenar, integrar, formular conceitos e regular as ações, e da agilidade e bom funcionamento do sistema periférico.  As funções superiores do cérebro respondem por integração auditiva, ou seja, atividade perceptiva da informação sonora, que é transmitida para análise e decodificação no córtex cerebral; memória ou processo de memorização capacidade que assegura a aprendizagem da língua, estocagem de informação e o repertório léxico; Atividade práxica são os movimentos precisos ou não, escolhas, aproximações, hipótese de onde surge o plano motriz a ser realizado.

Sucessivos e insidiosos fracassos em apreender causam danos na autoestima, na motivação, na capacidade de enfrentamento aos desafios inerentes e intrínsecos ao viver. Colocam o sujeito, o aprendente ou aprendiz do viver e do saber em um vínculo negativo e, às vezes, aversivo às novas aquisições de aprendizagem. Para que a aprendizagem ocorra, são necessárias algumas condições relacionadas a fatores psicodinâmicos: organização cerebral, visão audição, maturidade e psicomotricidade, fatores sociais:  nível socioeconômico, cultural, linguístico dos pais, riqueza de experiências e estímulos, fatores emocionais e motivacionais:  estabilidade emocional, personalidade, capacidade e adiar gratificações e suportar frustrações, fatores intelectuais: capacidade mental global, perceptiva e de resolução de problemas.

As condições metodológicas e a relação entre professor e aluno também influenciam as condições de aprendizagem e podem comprometê-la quando se dá ênfase demasiada no aspecto fonético, produzindo uma leitura muito analítica que limita a sua compreensão e a velocidade; quando o método é monótono; quando o professor não considera as diferenças individuais das crianças na aplicação do método; negação da realidade com esquiva das atividades que poderão causar frustração, afastamento da realidade e excessiva satisfação na fantasia, com inibição do desenvolvimento ou inibição intelectual; atitude agressiva e pejorativa diante de superiores e dos pares, rechaço ou franca hostilidade com o professor e colegas mais adiantados.

Principais disfunções

As mais comuns e estudadas são: a dislexia, disgrafia, disortografia, discalculia e o transtorno de atenção com ou sem hiperatividade, e muitos outros. Mas as mais prevalentes são:

Dislexia: se apresenta em indivíduo potencialmente normal que padece de disfunção cerebral e em condições favoráveis, poderá resolver bem seus problemas, como afirma Gesell e Abigail M. Caraciki que trabalhou por mais de 30 anos nessa área. A dificuldade na leitura, na compreensão e também na escrita.

Transtorno na Matemática: operações aritméticas acentuadamente abaixo do esperado para inteligência e idade cronológica. Ocorrem por inabilidade linguística, dificuldade na concepção de símbolos matemáticos, inabilidade ES espaço e tempo. Falta-lhes atenção, memória, tem inadequação na cópia de números e cifras, seguir sequências matemáticas, senso numérico e operações com multiplicação e divisão.

Dispraxias: ocorrem por falta de integridade do sistema nervoso, imaturidade biológica, inadequação na evolução das funções psicomotoras, déficits sensoriais e disfunção da evolução afetiva. Apresentam dificuldade em responder às exigências do ambiente, vestir-se, realizar tarefas simples, competir em atividades esportivas ou físicas, recorte, colagem, modelagem e dobradura, para escrever, pegar o lápis, pintar e trazem dificuldade em estar no ambiente e autoestima.

Diagnóstico preciso exige muitos olhares

A avaliação de dificuldades de aprendizagem em crianças e jovens, de forma que se consiga um diagnóstico preciso, não está ao alcance de apenas um profissional. Trata-se de tarefa que exige conhecimento de vários especialistas: neuropsicólogos, psicopedagogos, psicólogos, equipe médica, fonoaudiólogo e quem mais se fizer necessário. O aprendente deverá passar por entrevistas, assim como seus pais e educadores. Após a coleta de dados, deve ser feita aplicação de testes já estandartizados e tarefas que avaliam o funcionamento mental. Após estes procedimentos, o psicodiagnóstico fornecerá um perfil emocional, psiconeurológico, cognitivo ou intelectual e psicomotor, com os exames complementares da equipe médica e outros especialistas. Tendo então conhecimento da causa e das terapias necessárias, para as quais o aprendente será encaminhado.

 

Referências Bibliográficas     

  1. www.institutoabcd.org/portal/arquivos – módulo 2
  2. ANDEA – Associação de Dificuldade de Ensino e Aprendizagem
  3. Bryant, P; Nunes, T. Dificuldades na Aprendizagem da leitura: Teoria e Prática. São Paulo. Cortez; 1992. 4a. ed.
  4. Santos, LC; Marturano, EM. Crianças com dificuldade de aprendizagem: um estudo de seguimento. PSICOL Reflex e Crítica, 1999.
  5. Quirós, JB; Scharager, Ol. Fundamentos neuropsicológicos en las discapacidades en las discacidades de aprendizaje; Buenos Aires. Panamericana, 1980.
  6. Sampaio, S Freitas. Transtornos e dificuldades de Aprendizagem. RJ; Wak Ed. 2014.

Artigos

Como interagir com o disléxico em sala de aula

Ana Luiza Borba e Mario Ângelo Braggio

Alterações das funções executivas em crianças e adolescentes

Natália Martins Dias, Amanda Menezes e Alessandra Gotuzo Seabra