Por que perdemos plasticidade?

Se eliminar o que não funciona soa contraproducente ou paradoxal, por reduzir possibilidades futuras, pense na alternativa: quando a eliminação não acontece, o resultado é retardo mental, nome horroroso mas preciso e que descreve um cérebro que fica preso naquele estado infantil, cheio de possibilidades, mas poucas concretizadas ou concretizáveis. A perda da flexibilidade ao longo da vida é sinônimo de progresso, de tornar-se algo cada vez mais eficiente e eficaz em uma parcela cada vez menor de todas as possibilidades da vida.  LEIA +                      

Temos que nos livrar do que não funciona para continuarmos aprendendo

Se inteligência é flexibilidade, então que sentido faz a gente perder a plasticidade, ou seja, de certa forma emburrecer, ao longo da vida?

Plasticidade é uma propriedade fundamental dos neurônios, as células do cérebro que trocam sinais a longa distância, de modificar a si mesmos de acordo com o próprio histórico de atividade. Essa plasticidade dependente de uso e funciona a base do aprendizado, do aperfeiçoamento, da técnica apurada, dos feitos extraordinários: nós ficamos cada vez melhores naquilo que fazemos – ao custo, claro, de abrir mão de outras possibilidades.

É importante entender que esse toma lá dá cá faz parte do próprio mecanismo do que chamamos de “progresso”. Um bloco de mármore tem em si um sem-fim de formas possíveis –mas somente se o material que não faz parte de cada forma for removido.

 Quando os recursos são finitos, tornar-se algo notável é, por definição, abrir mão de outras possibilidades: a escultura de formas interessantes só acontece conforme as partes de interesse são apuradas e fortalecidas, sim, mas também conforme o que não faz parte deixa de ser.

Ao longo da vida, portanto, o que nos torna cada vez nós mesmos é a perda de possibilidades, à medida que ficamos cada vez melhores, porque especializados, naquilo que fazemos.

Lá pelo final da infância, inclusive, os astrócitos do cérebro formam uma capa açucarada ao redor dos neurônios, que, como um verniz, protege a arte de modificações futuras e ajuda a manter no lugar o que foi testado e aprovado. O que não previne completamente aprendizados futuros, claro –mas dá uma base sólida ao que vem depois.

Se eliminar o que não funciona soa contraproducente ou paradoxal, por reduzir possibilidades futuras, pense na alternativa: quando a eliminação não acontece, o resultado é retardo mental, nome horroroso mas preciso e que descreve um cérebro que fica preso naquele estado infantil, cheio de possibilidades, mas poucas concretizadas ou concretizáveis. A perda da flexibilidade ao longo da vida é sinônimo de progresso, de tornar-se algo cada vez mais eficiente e eficaz em uma parcela cada vez menor de todas as possibilidades da vida.

Se soa horrível, há esperanças. É uma questão de usar o conhecimento ao seu favor. Se por um lado aprender é reduzir suas possibilidades a favor de algumas poucas habilidades, por outro, escolher manter possibilidades abertas a cada momento é inteligente, então aprendizado inteligente é aquele que nos mantem tão flexíveis quanto possível: é aprender a aprender.

Suzana Herculano-Houzel

Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA).

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