Brincar não é coisa de criança. Brincar é também coisa de gente grande

Em tempos de altas expectativas de desempenho e competição, precisamos cultivar nossa capacidade de ver, escutar e brincar, atributos inestimáveis para a construção de nós mesmos e de nossos laços afetivos e amorosos.  Ver, escutar e brincar são práticas, exercícios, que devem ser cultivados com tenacidade e coragem, pois perturbam as expectativas vigentes de competitividade e hiperatividade.

Vivemos em um tempo em que tem sido bastante difícil inventar a vida. Os imperativos dos ideais de desempenho, de sucesso, de consumo, de qualidade de vida ocupam nosso cotidiano de tal forma que pouco tempo e espaço nos restam, para prestarmos atenção e refletirmos sobre nosso viver. Fazemos altos investimentos, na ilusão de que teremos altos resultados e, como máquinas, que quando bem ajustadas garantem alta performance, nos esforçamos ao máximo para atingir os ideais, muitas vezes alheios ao nosso vir a ser. O vir a ser, que se faz a cada momento ou oportunidade, vem sendo substituído por um estado de vigilância e de foco nos objetivos e metas que direcionam nosso projeto de vida, quase sempre individual e particular. Sonho, imaginação e paixão são substituídos por projeto, cálculo e planilhas de monitoramento de resultados. As possibilidades de afetação e de reflexão ficam mais restritas, assim como a capacidade de elaboração e transformação de nossos afetos e experiências. Como consequência, em vez de vacilarmos alegremente na corda bamba do vir a ser, nos entristecemos ou adoecemos, num esforço desmedido para mantermos nossa identidade acorrentada aos ideais de nosso tempo.

Alguns se perguntam, como experienciar os tempos de hoje, se estamos todos submersos em uma onda gigante de ideias e ideais que nos apequena e nos faz perder o fôlego?

Cultivando, preservando, exercitando nossa capacidade de estar e fazer juntos, de estabelecer laços de intimidade, de afinidade, de amizade, matéria-prima do convívio amoroso e social. Como relacionamentos são feitos de encontros e palavras, campo da imprevisibilidade e das contingências, precisamos estar muito atentos para que essa experiência seja frutífera, onde cada encontro e cada conversa possam ser transformadores de nós mesmos e do mundo a nossa volta. Precisamos estar atentos para que nossos filhos, parentes, amigos e alunos não se transformem facilmente em nossos concorrentes, em uma disputa da qual vence sempre aqueles que demonstrarem capacidade técnica, competência, produtividade e hiperatividade. Em tempos de altas expectativas de desempenho e competição, precisamos cultivar nossa capacidade de ver, escutar e brincar, atributos inestimáveis para a construção de nós mesmos e de nossos laços afetivos e amorosos.  Ver, escutar e brincar são práticas, exercícios, que devem ser cultivados com tenacidade e coragem, pois perturbam as expectativas vigentes de competitividade e hiperatividade.

“A ocupação preferida e mais intensa da criança é o brincar. Teríamos então o direito de dizer: toda criança que brinca se comporta com um poeta, pois cria um mundo próprio, ou melhor dizendo, insere as coisas de seu mundo numa nova ordem que lhe agrada”  Sigmund Freud

Sobre o brincar, que implica saber ver e escutar, sabemos que é uma experiência presente nas mais diferentes culturas e reconhecida como fundamental para formação e transformação da subjetividade de crianças, desde a mais tenra idade, até adultos em idade avançada. Apesar de estar quase sempre associada à infância, aos brinquedos e ao entretenimento, não é regalia de crianças, nem garantia de divertimento e distração. Ao longo dos anos as brincadeiras permanecem, se transformam ou se renovam entre aqueles que brincam e transmitem de geração em geração, atitudes, regras e significações compartilhadas.  Algumas experiências são restritas a cultura de seu povo, mas muitos brinquedos e brincadeiras atravessam oceanos e continentes, provocando de forma espontânea e criativa, uma rica mistura no universo das brincadeiras.

Vivemos em geografias diferentes, mas estamos sentados na mesma varanda“. Mia Couto

Quem brinca, em qualquer idade ou território, leva sempre a brincadeira muito a sério, pois, brincar é o tempo e o espaço privilegiados para a elaboração e simbolização de acontecimentos de vida, quer sejam prazerosos ou traumáticos. Por isso brincamos com brinquedos, com nós mesmos, com as pessoas, com o mundo a nossa volta, com ideias, fantasias e sentimentos. Mais do que uma atividade sujeita a regras, instruções ou valores culturais, brincar é um estado afetivo, é uma forma muito particular de se pôr em relação consigo mesmo e com o mundo das experiências e dos acontecimentos.

Tanto no mundo das crianças como no dos adultos, brincar requer disponibilidade subjetiva de estar consigo mesmo, com seus afetos, com suas fantasias, com seus pensamentos, sempre à deriva, sem intenção alguma de chegar a algum lugar, atingir alguma meta ou adquirir alguma capacidade ou conhecimento. Brincar é momento privilegiado onde algo sente em mim, algo pensa em mim, algo se move e vive em mim. Brincar requer ousadia e coragem para se dispor a inventar, a imaginar, a errar, a fracassar, a encontrar-se com o inusitado. Para tanto é preciso de tempo, de ausência total de expectativas, de solidão, e principalmente de não ter medo de ter medo. Para poder e saber brincar há necessidade também de equipamentos internos que levem, adultos e crianças, a uma posição subjetiva particular, um “estado de alma”, uma disponibilidade afetiva, uma capacidade de entrega, uma coragem de se aventurar, uma perda de tempo infinita. Esse equipamento interno está sendo cada dia mais reduzido na vida de todos.

“A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real.” Sigmund Freud

 Muitas vezes as crianças são invejadas, pois pensamos que brincar é um privilégio daqueles que têm tempo para se dedicarem ao exercício do “faz de conta”, para se lançarem ao mundo do “Era uma vez…”, para construírem e destruírem sem nada perder, para transgredirem as noções de tempo, regras e convenções sem medo nem culpa e, porque não, para habitarem o mundo da imaginação desrespeitando limites e conveniências. Outras vezes dizem que brincar é coisa de criança para denegrir os adultos brincantes, quando querem dizer que são infantis e inconvenientes, como se brincar fosse uma experiência marcada no tempo e no espaço.

Brincar é uma forma particular de abordar a vida que se aplica a tudo e não se liga a nada especificamente. Brincar não está condicionado à idade de uma pessoa, nem a uma determinada circunstância, espaço ou contingência. Brincar se faz brincando e se faz brincante aquele que é capaz de, ao se entediar, ao se desequilibrar, se lançar a um voo livre, divertindo-se sob a asa delta, leve e colorida que o sustenta. Ninguém sai o mesmo da experiência de brincar, pois ao brincar atingimos a potência máxima da nossa capacidade de simbolização, de imaginação e criatividade, enfim de transformação de nós mesmos.

Os imperativos da sociedade do desempenho e do consumo têm poder e força para convencer a todos de que é possível ter “qualidade de vida”, em uma vida sem sentido, mesmo porque construir o sentido da vida, hoje, é tarefa para poucos. Entretidos na busca de alto desempenho, muitos deixam de brincar e pensar e, cada um ao seu modo, adapta-se e reage ao que lhe é oferecido sem mediação simbólica nem criação de novos sentidos para a própria existência.

São inúmeras as brincadeiras que não carregam em si o real significado do brincar. A família vai ao parque de diversões ou às férias na Disneyworld e voltam para casa “azedos”, maldizendo o tempo e o dinheiro perdidos. Um presente caro para o filho pode ser menos interessante do que caixa no qual o mesmo veio embalado e, com a qual a criança brinca horas a fio. Também são muitas as festas de casamento que foram preparadas com atenção nos mais ínfimos detalhes, inclusive com atividades lúdicas, para as quais os adultos brincantes não compareceram, e a festa foi muito chata. Em contrapartida, muitas vezes é difícil para algumas pessoas entenderem que brincamos o Carnaval, brincamos a Festa de Reis e o Bumba meu Boi, brincamos as Festas Juninas, todas elas festas populares, que oferecem um tempo e um espaço para brincantes de qualquer idade.

“As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade.”  Mário Quintana

As crianças se dispõem muito mais a brincar do que os jovens e adultos, porque a experiência de brincar é uma das mais importantes quando se trata de lidar com acontecimentos que, à primeira vista, não têm sentido nem explicação. Acontecimentos que afetam os sentidos, mas que não estão claramente integrados e adaptados à consciência e ao conhecimento sobre nós mesmos e sobre o mundo. Acontecimentos que provocam transformação e requerem um trabalho particular de elaboração e ressignificação de nós mesmos e do mundo a nossa volta.

A criança não tem uma identidade definida e, portanto, pode transformá-la a cada instante, brincando de faz de conta, com seriedade e se expondo às mais inusitadas consequências.  Para entender o brincar de uma criança é preciso saber ver, mais do que estimular, interpretar e explicar.

Como os adultos têm capacidade de abstração e um vasto sistema de crenças que lhes permitem criar as mais sofisticadas e complexas racionalizações sobre si mesmos e sobre o mundo, a experiência do brincar vai sendo deixada de lado para não pôr em risco a identidade, que para muitos está cristalizada. Nem sempre têm tempo e disponibilidade interna para, ao exporem as experiências que requerem reflexão e elaboração de ideias e valores, transformar o sentido da própria existência.

A criança não interpreta como tempo desperdiçado a repetição incansável das brincadeiras infantis que têm como finalidade levar a significação de acontecimentos que escapam a sua compreensão.

Brincar faz, apenas, elas se sentirem bem!

Os adultos têm muito mais dificuldade em aceitar, sem entender, que é possível se sentirem bem após horas e horas de brincadeiras. Por isso, eles inventam metas e objetivos para justificar a experiência que têm valor e traz prazer por ela mesma. Os adultos são capazes de passar um longo tempo em reuniões enfadonhas discutindo e interpretando suas vivências, mas restringem o tempo de uma boa conversa, onde brinca-se com as ideias e os pensamentos.

Por isso as crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade porque não se importam de perder tempo, de repetir quantas vezes for necessário uma mera brincadeira que as leve a algum lugar subjetivo do qual elas saem sempre diferentes.

“Os grandes erram sempre ao brincar com os seus inferiores. A brincadeira é um jogo, e um jogo pressupõe igualdade”.  Honoré de Balzac

A partir da década de 1980 muitos estudos sobre educação destacaram a importância das brincadeiras como mais uma das alternativas para desenvolver habilidades e inserir nossas crianças no mundo do conhecimento.

O lema “aprende-se brincando” foi disseminado entre os educadores e o brincar passou a fazer parte do planejamento das atividades pedagógicas. Esse lema não só ganha longos parágrafos nos documentos oficiais, que estabelecem diretrizes para as políticas públicas educacionais em nosso país, como foi apropriado pelo mercado, transformando a brincadeira em mercadoria.

Em nome do valor e da importância do brincar, parques e praças públicas são revitalizados, brinquedotecas são instaladas em escolas públicas, playgrounds não podem deixar de fazer parte dos condomínios, prédios, clubes, bares e restaurantes, e a cada dia parques de entretenimento, caríssimos, são abertos ao público em geral.

O incentivo ao brincar influencia inclusive a arquitetura e a decoração de algumas casas. As paredes dos quartos agora são revestidas de fórmica ou pintadas de tinta lousa onde as crianças podem rabiscar e desenhar sem serem repreendidas, caixas e mais caixas são disponibilizadas para arrumação dos brinquedos que costumam ser em grande número e de variadas formas e cores; estantes e prateleiras de cantos arredondados são montadas à altura dos pequemos para que possam dispor livremente de seus brinquedos. Mas em muitas casas, o quarto das crianças ainda continua sendo o território onde elas ficam de castigo, e assim o mesmo espaço destinado para imaginar e brincar livremente é o espaço de reclusão para pensar e se conter em suas ousadas aventuras ou comportamentos inadequados.

O dia a dia das creches e escolas também está totalmente reformulado, desde a estrutura física, às vezes com decoração abusiva de cores e brinquedos, até a programação destinada à aprendizagem e aquisição de conhecimento. Tabuada, leitura e escrita ou regras de higiene estão frequentemente associadas a atividades lúdicas. O mesmo espaço e tempo destinado a aquisição do conhecimento, que requer disciplina e sistematização de ideias, é destinado a atividades que visam mais ao divertimento que a qualquer outro objetivo.

É possível se divertir brincando, mas nem toda experiência de brincar é divertida, mesmo que prazerosa. Ao mesmo tempo em que o brincar está sendo reconhecido com algo de valor para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças, estão sendo retiradas as condições necessárias para tal experiência. As brincadeiras são dirigidas e instruídas de acordo com os objetivos dos programas e projetos de ensino e brincar foi sumindo da vida vivida das crianças. As experiências livres, em tempo livre estão sendo substituídas por atividades em sala de aula ou nas brinquedotecas.

O quintal das casas, a rua e a hora do recreio – territórios privilegiados para brincar, onde as crianças ficam fora do campo de expectativas, controle e instrução dos adultos – são restringidos porque se tornou temoroso e trabalhoso deixar a criança sozinha. Em nossa região, não se vê pessoas, de qualquer idade brincando nas casas ou nas ruas e, na maioria das escolas, a hora do recreio está reduzida a apenas 15 minutos, mesmo para os mais pequenos.  Todos estão ocupados com alguma coisa que visa sempre alguma meta ou objetivo ou se divertindo apenas para espantar o tédio.

O tempo e o espaço de brincar foram reduzidos na vida das pessoas, em geral. As escolas avançaram muito no sentido de tornar as experiências de ensino lúdicas, mas nem tanto em proporcionar a experiência do brincar. A necessidade de destinar o tempo nas escolas (em todos os níveis) para o ensino e aquisição de conteúdos programados, provoca uma redução significativa das oportunidades para brincar, tanto para os professores quanto para os alunos.

Quando brincadeiras passam a representar estratégias de ensino, voltadas para objetivos específicos de aprendizagem, perdem em muito sua potência de construção de sentidos sobre si mesmas e sobre o mundo. Para tanto é necessário que o brincar ocorra de forma espontânea, subvertendo tempo/espaço e privilegiando o desejo, o ritmo e os afetos de uma criança.

As brincadeiras que são submetidas a instruções e orientadas de acordo com expectativas pedagógicas, podem ser lúdicas, mas comprometem a verdadeira experiência de brincar.  Uma coisa é uma criança usar lápis e papel, massinha de modelar, para treinar habilidades psicomotoras, adquirir, reproduzir e fixar conceitos. Outra coisa, muito diferente, é uma criança brincar de desenhar, de modelar, de criar palavras e ideias, elaborando seus afetos e sentimentos.

O boom do “aprende-se brincando” estimula altos investimentos na conscientização do valor e importância do brincar reproduzindo esse discurso, aos quatro cantos do universo, através de publicações de pesquisas científicas, formação de professores e divulgação na mídia (um exemplo é o maravilhoso documentário Tarja Branca).  Com o objetivo de promover e estimular a experiência de brincar, tanto o poder público quanto as ongs e as instituições privadas também investem na construção de equipamentos e recursos externos, assim como na regulamentação dessa prática e na capacitação de educadores. Ao mesmo tempo está sendo negligenciado o desenvolvimento dos atributos subjetivos necessários para tanto. Brincar requer capacidade de se expor a experiências que trazem conhecimentos obtidos por meio dos sentidos, e assim o que é experimentado, sentido, vivido, nos transforma e transforma o mundo a nossa volta.

Considerar o brincar como um direito pela letra da lei e inserir as brincadeiras nos programas formais de educação não é suficiente para que o território da escola se transforme em espaço de brincantes, para todas as idades. Ao contrário, toda tentativa de instruir, doutrinar ou informar por meio de brincadeiras contraria sua própria essência e está, portanto, fadada ao fracasso. A evidência maior desse fracasso anunciado é o fato de que entre brincar de brincadeiras e o celular/ tablet, muitas e muitas crianças estão optando pela tecnologia. E os pais e educadores, também. 

Na melhor das boas intenções, as brincadeiras pedagógicas estão produzindo e capacitando sujeitos a-sujeitados aos tempos de hoje, na medida em que vence quem tiver o quarto mais abarrotado de brinquedos, quem tiver o último modelo de Iphone ou quem for mais vezes à Disneyworld.

Quando fazemos do brincar uma mera atividade pedagógica e técnica, erramos de forma perversa o cálculo entre o espaço e o tempo de brincar e os limites de realização de uma criança, de um jovem, de um adulto, de um velho. Não saber brincar com o vir a ser de ser mães, pais, avós, professores, além de impedir o desenvolvimento dessa capacidade em nós mesmos, acarreta prejuízos irreparáveis para nossas crianças.

O tempo e o espaço do brincar precisam estar aquém das expectativas e esperanças de seus protagonistas, pois é tempo e espaço de criação, de significação, de transformação de ideias e sentimentos.   Para que as crianças possam se expor à experiência de brincar é preciso que os adultos a sua volta também se coloquem na posição de brincantes, na posição daqueles que também desejam inventar a vida.

Quem é o poeta, senão aquele que ao brincar com as palavras, cria um dizer novo sobre a vida cruel de cada um de nós?  Eliana Louvison

 

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