Reflexões sobre os sentidos da vida contemporânea

Excesso ou falta de sentido? | Contardo Calligaris

Tempo atrás, postei no meu Twitter: “Angústia é descobrir que somos pedaços de carne largados num planeta perdido e menor, e que tudo isso não faz sentido algum”. Talvez esse seja meu post mais popular, o que mais foi e continua sendo retuitado.

Sigo concordando com ele: há uma dimensão da angústia que provém da sensação de sermos reduzidos a um aglomerado de células sem história e sem palavras explicativas, ou seja, sem nada que diga por que e para o quê existimos (nós e o mundo).

Prova disso, há um exercício comportamental que pode aliviar as crises de angústia e pânico: a gente relembra (articulando as palavras) quem somos, onde estamos, quem são nossos próximos, o que fazemos, com quem nos relacionamos etc. O sofrimento é acalmado pela evocação de um sentido qualquer para nosso momento de vida e nosso lugar no mundo.

Do lado oposto, existem delírios de referência tão flóridos que, numa fuga acelerada do pensamento, o indivíduo passa a acreditar que absolutamente tudo faz sentido – por exemplo, tudo se refere a ele, e o mundo só fala nele. Esses momentos de excesso de sentido são tão dolorosos quanto o deserto de uma crise de angústia.

Você acha o excesso de sentido mais raro do que sua falta? Não sei. Há uma sutil fronteira entre o excesso de sentido de um delírio paranoico e o que acontece a cada hora na internet, na evocação de cumplicidades ocultas e complôs escusos graças aos quais nada é por acaso: tudo o que acontece tem sentido.

Entre esses dois extremos (a derrelição e o pleno sentido) se situa o sofrimento comum, numa espécie de incerteza: sofremos pela falta do sentido ou por seu excesso? Melhor dito, sofremos MAIS pela falta ou pelo excesso de sentido?

Na coluna da semana passada, perguntava-me se as religiões (que dão sentido a nossas vidas) são necessárias para aguentarmos viver.

A pergunta agora pode ser mais complexa: a religião (como exemplo do que pode dar sentido à nossa vida) é um remédio contra a angústia do nada, mas não pode ser ela a fonte do sofrimento que vem do excesso de sentido?

Além disso: será que precisamos de sentido ou poderíamos viver sem sentido algum? Não sei responder.

Constato que, em qualquer terapia pela palavra, coexistem duas atitudes opostas.

Há a tentativa de aliviar e curar o sofrimento revelando, descobrindo ou inventando um sentido para os acontecimentos da vida (é a atitude do conselheiro espiritual, do padre, mas também pode ser a do psicoterapeuta, no exemplo que dei antes, para reagir a uma crise de pânico).

E há a tentativa de aliviar e curar o sofrimento criticando e denunciando o sentido, como se fosse sempre uma ilusão. É a atitude de quem aposta que seja possível pegar mais leve na vida – viver sem precisar atribuir um sentido ao que ocorre e ao que fazemos.

A própria psicanálise oscila entre essas duas atitudes, ou seja, entre interpretações que preenchem nossa vida e nossa história de sentido e outras que revelam que o sentido de tal ou tal outro momento de nossa vida é quase sempre uma ficção ou, pior, um engodo.

Talvez essa oscilação seja a consequência inevitável do fato de que o sofrimento de quem pede ajuda a um terapeuta oscila mesmo entre o excesso e a falta de sentido.

Nenhum sentido parece ser suficiente para responder ao sentimento de derrelição, mas os sentidos que inventamos são sempre em excesso – um pouco como aquele neurótico que, para se impedir de desejar as pernas da irmã, que sempre usava saia curta, decidira tapar com toalhas longas as pernas de todas as mesas de casa.

O excesso de sentido é algo que conhecemos bem: a maioria de nossos sintomas são produzidos por ele – vivemos para expiar uma culpa, agimos para mostrar rebeldia, para ganhar aprovação etc.: os afetos da infância pesam em cima de nós, dão um sentido à nossa vida, mas nos oprimem.

O sentido oferece uma compensação: somos “pesados”, viajamos cheios de malas, mas nossa viagem é, por assim dizer, justificada – ela acontece por alguma razão, que podemos até ignorar, mas que supomos e graças à qual acreditamos que não estamos no mundo à toa.

O que conhecemos menos é a leveza que seria possível se conseguíssemos parar de procurar desesperadamente um sentido – sem cair no desespero ao descobrir que talvez, de fato, não haja sentido algum. (Fronteiras do Pensamento)

Roger Scruton e Jordan Peterson: apreendendo o transcendente


A conversa entre o Dr. Jordan B. Peterson e Sir Roger Scruton foi moderada pelo Dr. Stephen Blackwood e introduzida pelo Professor Douglas Hedley. O evento foi apresentado pelo Centro Cambridge para Estudo do Platonismo e pelo Ralston College, no dia 02 de novembro de 2018 em Cambridge, Inglaterra.

Douglas Herdley: Gostaria de começar perguntando, a cada um de vocês, o que é o transcendente?

Roger Scruton: Bem, deixe-me começar. Eu tenho uma posição, que também é atribuída a Kant, de que temos um entendimento negativo muito claro. Temos avançado até o limite de nosso pensamento em tantas áreas, sabendo que, apesar de não haver mais nada que possamos dizer, de alguma forma a verdade não foi esgotada.

Eu penso que essa visão negativa precisa ser combinada com uma visão mais positiva, que nos diga que existem outros caminhos, talvez não através do pensamento, mas alguma outra maneira de cruzar aquela barreira, como se estivéssemos aterrissando no reino do transcendente e conhecendo isso de dentro.

Isso é algo que nós entendemos muito rapidamente nas relações interpessoais. Quando me dirijo a você, sei que estou me dirigindo a algo que também se dirige a mim, mas de um lugar que eu jamais poderia estar – eu não poderia me ver através daqueles olhos e não posso capturar o que está me vendo através daqueles olhos.

Mesmo assim, existem saltos na imaginação que podem me colocar no seu ponto de vista e, a partir desse ponto de vista, posso acabar entendendo exatamente o que eu sou, mas de uma forma completamente diferente do que simplesmente o conhecimento empírico que tenho de mim mesmo. Podemos adaptar esse tipo de entendimento interpessoal a todos os outros aspectos de nosso mundo que são misteriosos. A música por exemplo. Esse é um começo.

Jordan Peterson: Sir Roger mencionou que o transcendente é aquilo como qual colidimos quando percebemos nossa ignorância. Então, é aquilo que transcende nossa ignorância. Isso se torna um fato implacável, a menos que você acredite que não tem ignorância – neste caso, não há um motivo para continuar discutindo com você.

Você também pode pensar sobre isso tecnicamente. Sabemos o suficiente sobre como o cérebro funciona, não que saibamos muito, de forma que coisas úteis podem ser ditas sobre isso.

Você tende a representar o mundo da maneira mais simples que pode e que funciona para o que você está fazendo. Você não enxerga realmente o mundo. Você vê representações de baixa qualidade e suficientemente úteis do mundo. Se estas representações funcionarem, então, está bem. Não há necessidade de ajustá-las. Elas são relativamente fáceis de lembrar e de manipular.

Mas, às vezes, você tem uma má interpretação sobre alguém, por exemplo. Você tem uma conversa e a conversa fica atravessada. Isso significa que a coisa que você pensou que estaria conversando não é a coisa com a qual você está conversando e isso se manifesta através do erro. O erro é o lugar onde o transcendente se revela. O que está realmente se revelando é a realidade que está do lado de fora e embaixo das suas percepções.

Então, o que você vê no mundo é um conjunto de desenhos animados e boa parte disso é, na verdade, a consequência de você não estar vendo nada além da sua memória. Seu cérebro é organizado de forma que, em vez de percorrer toda a dificuldade de ter que olhar para algo em si mesmo, você olha para o que supõe estar lá. Se você pode ficar satisfeito com isso, muito melhor, mas a coisa em si mesma é sempre muito mais rica do que sua percepção. Em parte, é por isso que você comete erros, mas em parte também é a razão pela qual continuamos acumulando sabedoria no mundo. Sempre há algo mais a ser descoberto.

Você pode mostrar isso até mesmo no sentido religioso em algum grau, porque você pode dizer que há um elemento para o transcendente que gera nas pessoas um sentido de significação religiosa.

Você pode fazer isso cientificamente, ao administrar nas pessoas substâncias que quebre a inibição da percepção pela memória e, então, isso estabelece o ponto onde o transcendente tende a se revelar – algumas vezes, de forma avassaladora. Isso não se trata de alguma ficção. O que é transcendente é mais real do que a realidade que você percebe.

Douglas Herdley: Os antigos e os medievais tinham uma sensação clara de que não era o mundo que estava mudando, mas sim nós mesmos enquanto ascendíamos em direção a verdades mais profundas, a formas mais elevadas de beleza – enquanto nos tornamos mais conscientes de nós mesmos. Então, não é o mundo que está mudando: somos nós. Pergunto se vocês podem falar sobre como vocês entendem a natureza desta ascensão, deste movimento e o que o desencadeia.

Roger Scruton: Tomaria cuidado com a metáfora em “ascender”. Em Platão, é muito claro o que ele queria dizer: ele queria que nós transcendêssemos nossa percepção mundana, nossa forma mundana de ver as coisas. Platão queria que olhássemos para o mundo da perspectiva de Deus e isso poderia ser feito se entrássemos no mundo das formas puras e abandonássemos a realidade empírica.

Enquanto a experiência do transcendente está disponível para nós, pessoas modernas, não se trata da forma com que a alcançamos. Talvez, Jordan Peterson esteja certo de que há experiências narcóticas em que as coisas se abrem para nós porque velhas barreiras são subitamente removidas.

Mas, no meu próprio caso, é a concentração na realidade empírica que, em determinado momento, se transforma de mera compreensão sensorial para uma visão da realidade se comunicando comigo.

Penso que é isso que a literatura, a arte e a música fazem. Elas são as melhores. Elas reescrevem a realidade de forma a comunicar algo com a pessoa. A arte não está apenas lá como um objeto na sua frente.

Este sentido de transcendente é como se descobrir em um espelho, vendo no mundo um todo que é novo e que não se pode identificar com palavras o que está sendo observado.

Não é um mistério, mas é algo que não se pode explicar. Essa é a diferença entre o escritor bom e o ruim, claro. O bom escritor descreve algo de tal forma que a coisa descrita contém a alma do leitor.

Jordan Peterson: Esta pode ser a diferença entre “algo” e “algo com significado”. Esse é um fenômeno muito misterioso. Na verdade, é a essência do fenômeno, porque isso significa “iluminar”.

Estamos rodeados por fatos empíricos. Eles estão em todo lugar, são mais do que podemos contar. Mas, alguns emergem e se manifestam como essa conjunção entre o factual e o significativo.

Talvez, isso se aproxime do que você descreveu. Alguns fatos se manifestando implicitamente significativos. Isso quer dizer que existe um chamado que não está dentro de você, não sei como explicar.

Você está em uma livraria e um livro se revela para você. Você está em uma conversa e parte da conversa dispara algo em você.

Você está lendo um artigo científico e a maior parte da leitura é chata, mas, de repente, algo se destaca: é um portal para o transcendente. Esse é o lugar onde o fato e o sentido convergem. É um fenômeno que não entendemos muito bem. Tem algo a ver com sua convergência, com a narrativa que nos guia – qualquer que seja ela. (Via Fronteiras do Pensamento)

 

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