Conte Outra Vez – as grandes angústias humanas nas histórias infantis

Na entrevista com a diretora da Editora Projeto, de Porto Alegre, Annete Baldi, trouxemos uma discussão sobre a resistência dos adultos aos livros com temas considerados tabus: morte, abandonos, tramas familiares, sexualidade e tantos outros.  Vamos nos aprofundar nesta questão, especialmente para que adultos que ainda não estão convencidos, tenham a dimensão dos efeitos dessas histórias para a saúde mental e emocional das crianças. Para isso, vamos recontar a história do projeto “Conte Outra Vez – Histórias para formação de crianças”, desenvolvida durante 10 anos, pela psicóloga Eliana Louvison, aqui do CPD, e que resultou em livro homônimo.

O projeto foi desenvolvido em duas creches de Londrina. Uma localizada em um bairro que, na época, se originava de ocupação espontânea e outra situada na fronteira entre um bairro de alto padrão e moradias de classe média. O propósito era apresentar aos professores uma forma de abordar com as crianças da Educação Infantil questões que acompanham o sujeito desde o nascimento e que requerem um sofisticado processo de elaboração afetiva e cognitiva: amor e ódio, nascimento e morte, assassinatos e suicídios, perdas e lutos, injustiça e abandono. Ou seja, os tais temas tabus dos quais tantos adultos querem poupar as crianças.

E a melhor forma de tratá-los no dia a dia das creches foi por meio das narrativas das histórias infantis, principalmente as clássicas, que por anos e anos têm permanecido em nosso imaginário e participado do processo de representação e simbolização de afetos e experiências. Com a mediação das histórias contadas e lidas, as crianças e os professores, cada um a partir das próprias experiências, puderam desenvolver a capacidade de nomear sentimentos e emoções, preservar e estimular a imaginação, desenvolver a criatividade e a flexibilidade cognitiva, que são atributos fundamentais para a aquisição de valores éticos e sociais.

Eliana conta que a escolha se deu em função dos efeitos que as  histórias trazem em várias instâncias do aparelho psíquico. No projeto Conte Outra Vez, o objetivo era que tivessem efeito principalmente na capacidade de sociabilidade da criança. “É muito complicado aprender o que é bom e ruim, o que é certo e errado, o que é bonito e feio. Não são valores absolutos. O bom faz o bem, mas pode fazer o mal. Isso requer elaboração para que a criança possa relativizar”, diz Eliana.

As narrativas clássicas mostram esse movimento contínuo, o bom vira mau, o mau vira bom. A história dos Três Porquinhos, por exemplo, fala na verdade de um só, que a cada momento age de uma forma diferente. “Temos os três dentro de nós. Uma hora somos o porquinho que está com a casa mais vulnerável, em outra conseguimos agir bem com as intempéries da vida, em outra nos aliamos e estabelecemos cumplicidade para dar conta de algumas coisas”, diz Eliana.

A relativização do mal é apresentada também de forma fantástica, de acordo com a psicóloga, em “João e Maria”, primeira história contada no projeto Conte Outra Vez. Segundo ela, assim como os personagens que foram abandonados na floresta pelos pais, aquelas crianças eram deixadas na creche por questões de fome, de falta de dinheiro.  E elas não podiam ficar indefesas, tinham que perder a ingenuidade para sobreviver, pois faziam o percurso de “João e Maria”.  Com 5, 6, 7 anos tinham que andar sozinhas pelo bairro e se livrar de assédios de droga.

“João e Maria não chamam o Conselho Tutelar e nem fazem terapia, depois. Eles se viram. Para sobreviver, utilizam recursos que são considerados tabus, sentimentos do mal, como a mentira, a astúcia, a dissimulação. E é isso que é preciso fazer, convocar a perder a ingenuidade, equipar essas crianças para se defenderem. E parte desse processo é aprender a relativizar o mal. Tem hora que é preciso ser mauzinho, como Maria que joga a bruxa no forno”, diz Eliana.

Essa é uma aprendizagem para todas as crianças, não apenas para as que vivem em situação de vulnerabilidade social e econômica.  “Vamos pensar na questão do bullying que está presente em todas as realidades. Como resolver? Ensinando a criança a se defender, e não acreditando que as pessoas vão deixar de judiar uma das outras. A vida é assim.”

Mas, aprender a relativizar o certo e o errado, o bom e o mau, não é tarefa simples. A criança precisa construir uma teia de ideias, valores, que vão constituir o Eu e o Supereu. “Com essas instâncias psíquicas fortalecidas, ela decidirá o que é e o que não é bom para si com a autonomia de quem consegue fazer julgamento de valor, e não a partir de um manual de certo e errado. A criança tem um conjunto de ideias internalizadas que são compartilhadas, e é a partir delas que tomará suas decisões”, explica Eliana.

 Encontro com as narrativas ensina a narrar

Toda história, seja a que nos é oferecida pela literatura ou a que inventamos sobre o mundo ou sobre nós mesmos, tem a maravilhosa função de nomeação e construção de sentidos. As clássicas têm o valor especial de tratar de questões humanas que transcendem o tempo e o espaço, e por isso podem atingir e afetar a todos independentemente da vida singular de cada um.  O “Era uma vez, num mundo que não existe mais” permite que uma criança se aproxime de seus afetos e de suas ideias sem se angustiar.

O conteúdo rico e complexo recheado de palavras, tramas e conflitos, soluções e impasses permite que uma criança adquira um repertório próprio de palavras e ideias e possa dizer de si e do outro. “É impressionante como as crianças passaram a contar sobre suas vidas, a partir do momento em que começamos a contar essas histórias. Antes, o pai em conflito com a mãe era um negócio que elas testemunhavam e não sabiam bem o que era. A partir das histórias, conseguiam contar o que era e como as afetavam.”

Essa é uma das maravilhosas funções das histórias infantis, abrir o mundo da criança para que possa narrar a seu respeito, mesmo que crie as ficções mais doidas sobre si. A preocupação, de acordo com a psicóloga, não é se de fato está falando de si tal como é, pois todas as narrativas que fazemos de nós são provisórias.  O importante é que ela tenha um repertório do qual possa lançar mão para falar de si, pois à medida em que consegue contar o que está vivendo, a criança vai se constituindo.

“Tem um exemplo muito interessante, entre tantos outros que vivenciamos durante o desenvolvimento do Conte Outra Vez.  O pequenininho de um ano e pouco estava experimentando um sentimento que não sabia nomear. Ao começar a escutar as histórias de lobo mau, três porquinhos, bruxas, ele começou a falar que tinha medo. A interpretação dos pais foi de que o sentimento surgiu por causa das histórias. Não. Ele já experimentava o medo, apenas passou a nomear o que estava sentindo e, assim, conseguiu contar para os pais. Ser capaz de comunicar o que está sentindo fez com que ele não entrasse em estado de angústia”, explica Eliana.

 Um outro que conta, conta, conta, conta

A construção da subjetividade requer mediação de outro humano para antecipar o sentido. Um outro que conte a história. “O “blábláblá” da mãe tentando adivinhar o que o bebê está sentindo – “Está com dor, com cólica, mal-humorado” – vai convocando o aparelho psíquico a funcionar. Sem isso, não viramos seres humanos”, afirma Eliana.

Diante da impossibilidade de convocar o adulto a ficar narrando para a criança as tramas intrapsíquicas, que se dão na base de um recalque, as histórias que metaforizam as grandes angústias humanas cumprem esse papel.

No projeto Conte Outra Vez, além das clássicas, as educadoras contavam também as histórias de Rubens Alves, e um exemplo do efeito delas nas crianças se deu com a leitura do livro “O medo da sementinha.” A história fala sobre a morte, sem nomeá-la nenhuma vez, ainda assim, ao escutá-la, as crianças passaram a perguntar se pessoas próximas a elas iriam morrer.  “Essa é a maravilha das histórias infantis bem escritas e bem contadas. Elas afetam os sentidos e dispensam explicações.  E dispensam mais do que tudo a tal moral da história, que do meu ponto de vista jamais deve ser oferecida a uma criança. Deixemos que ela mesma conclua!”, afirma Eliana.

Ler a história para a criança, segundo a psicóloga, traz ganhos também para a sua capacidade futura de leitura. “Ao ouvir alguém ler, ela se dá conta de que tem uma equivalência entre a palavra escrita e a falada, isso fará com que tenha uma fluência maravilhosa quando aprender a ler.”

Aqueles que costumam ler para os pequenos sabem que eles pedem para repetir as histórias. E não é um capricho de criança. Para alcançar o efeito de auxiliá-la na elaboração das grandes angústias humanas, além de narrativas bem construídas e da mediação de um outro que as conta, é necessário a repetição.

No projeto Conte Outra Vez, para bebês até 2 anos, as educadoras, segundo Eliana, repetiam a mesma história por três meses. Em casa, os pais devem contar quantas vezes a criança desejar, e muitas vezes elas pedem para repetir apenas um trecho. “E é muito bonitinho de ver, elas sabem cada palavra, se você muda alguma elas chamam a atenção.”

Apesar de a experiência da repetição ter sido abolida de nossas práticas escolares, pois na pretensão de educarmos para a liberdade, passamos a considerá-la como uma forma de coerção, ela não pode ser dispensada quando se trata do processo de elaboração, sistematização e simbolização de conhecimentos e atitudes, de acordo com Eliana.

A repetição é a condição necessária para elaboração do próprio pensamento. Sem isso, somos capazes apenas de colar, copiar, reproduzir.  “Podemos até viver sem decorar a tabuada, mas quando somos afetados por ideias ou experiências que produzem desequilíbrio e transformações, quer sejam de ordem afetiva ou cognitiva, sem a repetição, que leva à futura elaboração, nos tornamos sujeitos esvaziados e apequenados em nossa capacidade de ver e ler o mundo que nos cerca.”

Um universal que regula a todos

 Em nome de uma política de autonomia às avessas, as crianças estão sendo colocadas em lugares de decisões para as quais ainda não têm o aparato psíquico necessário, e levadas a acreditar que podem fazer suas escolhas à revelia de um universal que regula a todos. “Isso fragiliza o Eu que precisa estar imantado em um conjunto de ideias universais.  As histórias infantis bem elaboradas, que não têm amputados os trechos considerados traumáticos, cumprem essa função”, diz Eliana. A psicóloga observa três dessas ideias universais que tem considerado emblemáticas: sexualidade, agressividade, supressão do par antitético bem/mal.

 A ideia de que o bem deve vencer o mal, parece careta, mas ainda é universal. No entanto, nas tramas atuais, especialmente em novelas, séries, filmes, é muito comum a luta entre um bem e um mal ser substituída pelo mal versus um mal maior.  “Não tem problema nenhum um desenho ser sanguinolento, desde que seja bem versus o mal, mesmo que o mal vença; pois na vida é o que acontece, às vezes”, diz Eliana. ”A eliminação do par antitético (bem/mal, bonito/feio, certo/errado) é um problema para crianças até os 13 anos, pois coloca as relações no patamar da perversão.”

Nos campos da sexualidade e da agressividade, Eliana observa que os adultos têm privado as crianças de narrativas importantes para que criem autonomia de fato sobre suas escolhas. Ideias universais não mudam junto com costumes. Não aceitável há algumas décadas, hoje é completamente natural que mulheres utilizem roupas que mostrem seus corpos. No entanto, o corpo continua sendo objeto de desejo, isso é universal, não mudou e precisa ser dito para a garota de 12 anos que o expõe de uma forma maravilhosa.  “É uma judiação. Ninguém diz a ela: ‘Olha, isso vai provocar desejo nos homens, você dá conta?’. Dizer isso basta, não precisa reprimir, dizer para trocar de roupa, colocar saia comprida, cobrir os peitos.  O que precisa é que alguém faça a garota saber que o corpo é objeto de desejo”, diz Eliana.

Sexualidade e agressividade, ressalta a psicóloga, são forças terríveis no interior do ser humano, que precisam ser domadas, e sobre as quais não temos controle, por mais que se viva em uma família harmoniosa. “O que podemos é fazer com que se manifestem da forma mais adequada para garantir a sociabilidade, mas não podemos fazer de uma pessoa, um anjo.”

“Chapeuzinho Vermelho”, por exemplo, nada mais é do que uma menina que resiste a reconhecer a sexualidade que está experimentando e conhecendo. Ela percebe que não é a vovó. Olhos grandes, boca grande. Ela vê que não é uma relação casta. Não é uma figura de amor. É um lobo desejante. E ela se deita com ele porque não quer ver que tem outras coisas regendo as relações humanas, além do amor, da cordialidade.

“Não sei por que razão ninguém quer falar disso. É muito curioso. A gente vive num mundo em que muitos preconceitos já foram superados. Mas é impressionante, pais e educadores não querem dizer: ‘Isso é a expressão da sua sexualidade, isso é a expressão da sua agressividade’. Como se as crianças fossem sujeitos castos e dóceis. É o mesmo com os jovens. Eles estão transpirando sexualidade e não querem ver. Daí, a chapeuzinho vermelho engravida com 13 anos. Claro que engravida. Ninguém nomeou. Ninguém narrou que o corpo descoberto podia atrair o desejo de um homem. Ninguém diz: ‘Essa roupa vai atrair o desejo de um homem. Fica esperta!’”

Erika Pelegrino, jornalista CPD
Eliana Louvison, psicóloga CPD

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