Atenção: temas tabus não prejudicam a saúde do leitor

Os livros com temas perturbadores são necessários para destruir os esquemas que criamos de proteção para a infância idílica. A infância não é idílica.

Felipe, Clarice, Camila, Olavo são personagens infantis vivendo as circunstâncias da vida real. Felipe é apresentado por seu pai a um irmão que ele desconhecia. Clarice e o irmão passam a morar com a tia quando a mãe se muda para o exterior com o namorado. Camila pensa sobre as questões mais simples e complexas da vida enquanto brinca sozinha no pátio do prédio. Há um grande número de publicações infanto-juvenis que tratam da realidade nua e crua em poéticas narrativas ficcionais. Temáticas sociais, tramas familiares, novos formatos de família, morte, sexualidade, conflitos, drogas, guerras, manipulações genéticas, monstros, bruxas. Os catálogos de editoras nacionais e internacionais trazem um vasto repertório com essas narrativas. Excelentes obras literárias que, se para muitos adultos servem de apoio para conversar com as crianças sobre suas angústias e medos, para outros devem ser evitadas, acreditando assim poupar os pequenos da dor e do sofrimento.

Há alguns anos, a psicóloga Rosely Sayão, em sua coluna na Folha de S. Paulo, contou sobre a mãe que queria tirar a filha da escola porque a professora lia muitas histórias de bruxas e monstros. Ela acreditava que essa era a causa dos pesadelos da criança. Sayão alertou para o fato de que medos e angústias não são criações das histórias, mas, sim, questões humanas. Recentemente, uma escola retirou da programação a versão em quadrinhos do livro  O Diário de Anne Frank, por pressão dos pais que não consideraram a leitura adequada. Nas mídias sociais, também há pouco tempo, pais censuraram o livro O Menino que Espiava para Dentro, de Ana Maria Machado.

Annete Baldi, diretora da Editora Projeto, de Porto Alegre, conta que livros com narrativas que incomodam os adultos encontram resistência nas escolas. “Nas feiras de livros que participamos, vemos que as crianças se interessam, mas o adulto tem dificuldade em lidar com estes assuntos.”

No início deste ano, Annete decidiu criar dois cursos com o intuito de arrecadar dinheiro para a compra de acervo da Biblioteca Comunitária Terreiro de Jorge, resistência popular na periferia de Porto Alegre. Um dos cursos, ministrado em Porto Alegre e em Fortaleza, foi Atenção: Temas tabus não prejudicam a saúde dos leitores.

Ela nos conta sobre o medo dos adultos e como o projeto foi desenvolvido.

Qual a dinâmica do curso?

A estrutura do curso foi montada pensando nos temas que movem os adultos e as crianças. Lemos com os professores e discutimos, abordando vários pontos. Sugerimos às escolas que façam o mesmo com os pais, promovendo saraus, clubes de leitura, rodas de conversa, trazendo a experiência da leitura para a discussão.

O programa traz também o politicamente correto nas mídias sociais. Como foi realizada esta reflexão?

O politicamente correto entrou como tópico porque discutimos alguns casos em que a literatura foi taxada ou censurada nas redes sociais; e outros em que familiares exigiram a retirada de livros dos programas escolares por julgarem inadequados para seus filhos. Falamos e lemos sobre a polêmica do livro de Ana Maria Machado (O menino que espiava para dentro) e sobre o caso do Diário de Anne Frank.

Para refletir sobre estas questões, um dos textos que lemos foi do autor de livros infantis e psicanalista, Celso Gutfreind. Segundo ele, “pais aparentemente esclarecidos reclamam de cenas de maçãs mordidas ou de sexo. E saem postando nas redes sociais o que ainda não é símbolo e nem terá tempo de ser, já que outra postagem impulsiva o sucede logo em seguida. E, fora do símbolo, não há salvação.”  Amo esta frase dele: “Arte não incita suicídio, racismo, fascismo, barbárie. A falta dela é que nos torna vulneráveis.”

Quais livros são lidos no curso?

Trabalhamos com livros do nosso catálogo e de outras editoras pequenas. A Raça Perfeita, que trata de ética na ciência, abordando o tema da manipulação genética. É feito todo em imagens, ganhou vários prêmios, mas não vende. Habitantes de Corpos Estranhos, livro de contos que fala sobre a primeira vez no ginecologista, sexo, beijo, as questões do adolescente com o corpo, drogas. É um livro muito bom literariamente, mas também não vende, pois a temática perturba o adulto. Os livros Felipe e a História de Clarice tratam de temas sobre questões familiares. Felipe conta a história de um garoto que é apresentado pelo pai a um irmão da sua idade que ele desconhecia a existência. A História de Clarice fala sobre a mãe que deixa Clarice e o irmão com a tia e vai morar fora do país com o namorado. Em O Mundo de Camila, a narrativa é o fluxo de pensamentos da garota enquanto brinca sozinha no pátio do prédio onde mora. Com muita naturalidade são tratados temas delicados, como a morte. Em Olavo, o tema é a tristeza. São todos temas considerados tabus para os adultos e que fazem parte da vida da criança.

O objetivo do curso foi desmistificar estes temas para os adultos?

Como mediadores, sejamos editores ou professores, temos que ter muita clareza de que as leituras de temas perturbadores, mais do que necessárias, são benéficas. Pois, nos fazem pensar e confrontar aspectos da complexa experiência que é crescer e viver. Então, devemos proporcionar à criança a experiência destas leituras. E aos pais também, para tentar quebrar um pouco esta dureza.

José Saramago dizia que a criança cresce mais à sombra do que ao sol, pois enfrenta percalços na vida, como qualquer ser humano. E assim como os adultos, não deve desviar deles. Se sente tristeza, é importante deixá-la ficar triste. Como mostra a história de Olavo.

Estes livros derrubam o dique de contenção que o adulto luta por manter incólume por meio do preconceito de que crianças são inocentes e que devem, por censura, ser protegidas destes temas ou de linguagens que consideramos impróprias. As situações perturbadoras vividas por elas são simbolizadas por meio dos personagens que experimentam situações semelhantes.

Por isso, é importante que a criança tenha um repertório vasto de narrativas que tratam dos assuntos mais cabeludos, mais perturbadores. Estas histórias constituem um acervo que funcionará como uma caixa de ferramentas, dando o instrumental necessário para a criança lidar com as questões da vida. No curso, abordamos este ponto com o livro dos psicanalistas Mário Corso e Diane Corso, Fadas no Divã. Tem uma fala deles que exemplifica muito bem esta ideia. “Um grande acervo de narrativas é igual a uma boa caixa de ferramentas na qual sempre temos o instrumento certo para a operação necessária. Pois, determinados consertos ou instalações só poderão ser realizados se tivermos a broca, o alicate ou chave de fendas adequados. Além disso, com estas ferramentas, podemos também criar, construir e transformar os objetos e os lugares”.

Esta metáfora é a melhor explicação e justificativa que a gente pode dar para aqueles que temem estes livros. Uma coisa é certa, eles são perturbadores para os adultos e não para as crianças e os adolescentes. Estes livros são necessários para destruir os esquemas que criamos de proteção para a infância idílica. A infância não é idílica.

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