Quem vai escutar os jovens sobre a tragédia de Suzano?

“O pano de fundo da melancolia é o de uma sociedade que hipervaloriza o objeto de consumo em detrimento ao lugar da palavra e extensão narrativa que dê lugar à elaboração da experiência.”  (Julieta Jerusalinsky, psicóloga)

 Não fizemos uma ampla consulta. Conversamos com alguns jovens de 15 anos e alguns professores que nos relataram o silêncio nas escolas sobre a tragédia em Suzano (SP), que ocorreu em 13 de março na Escola Estadual Professor Raul Brasil, quando um adolescente de 17 anos e um jovem de 25 anos entraram atirando e deixaram vários mortos e feridos. A repercussão do caso seguiu o roteiro de sempre: espetacularização, explorando ao máximo os detalhes do ataque, o desespero de pais e familiares, os atiradores; entrevistas com especialistas tentando orientar como as famílias e as escolas devem agir nestas situações. Pouco mais de duas semanas depois o assunto já não tem mais tanto espaço e a vida toma seu curso normal.

Nos perguntamos se em algum momento, as escolas pararam para escutar e acolher adolescentes e crianças que viram, em detalhes, pelos noticiários e mídias sociais, alunos como eles sendo mortos. A comunicação ampliada e potencializada pela tecnologia extingue os limites  de divulgação massificada das cenas do horror, mas e os espaços para digerir, elaborar toda essa tragédia consumida sem restrição? Quem vai fazer o corpo a corpo?

Segundo os adolescentes com os quais conversamos, a rotina escolar continuou como se nada tivesse acontecido.  Nenhum tempo foi dedicado para que pudessem falar como se sentiam diante daquele massacre, que poderia perfeitamente ter ocorrido nas escolas de cada um deles. Na outra ponta, os professores estavam angustiados e sem saber como agir. “Não tive forças para falar sobre o que aconteceu com meus alunos˜, disse Leandro Gauche. A psicopedagoga Maria do Carmo Cardoso Bezerra trabalha com crianças de 9 e 10 anos, se cobra por ainda não ter conversado com elas, mas não sabe como fazê-lo. “Penso que é preciso escutá-las, certamente viram as notícias, mas fico sem saber como agir de uma forma que não gere ainda mais insegurança.”

Sonia Lenira dá aula de Filosofia para o segundo ano do Ensino Médio e encontrou um caminho para tratar do tema a partir de um trabalho sobre a ética na cobertura jornalística do caso.  “É preciso conversar com eles, foi muito impactante o que aconteceu”, diz.  Os sentimentos que vieram à tona foram de medo, revolta, indignação e de indiferença – “Morre gente todo dia.” “Alguns disseram que as mães estão com medo, outros falaram que o que mais assusta é o fato de ser uma realidade muito próxima da deles”, relata Sônia Lenira.

Acreditamos que iniciativas solitárias como a desta professora ocorreram em várias salas de aula. Mas nos questionamos sobre ações encampadas pelas escolas envolvendo a todos. Algo extremamente grave aconteceu, muito se perdeu. Alguns jovens perderam a vida, e todos perderam, de certa forma, a representação da escola enquanto lugar de segurança e proteção. Temida pelos pais, a rua já foi há muito interditada para brincadeiras e perambulações. Agora, o território da escola também se tornou vulnerável e os convoca a estarem atentos não só à matéria ensinada, mas a um possível risco de morte.

Isso não é o suficiente para que as escolas se mobilizem, parem suas atividades curriculares para escutar e acolher? Este silêncio, certamente, impede a construção de qualquer narrativa sobre o acontecimento e os afetos dele decorrentes. Como faremos o luto coletivo e particular dessa experiência? Falando sozinhos? Curtindo no Facebook e no Instagram? Treinando cara de paisagem frente ao horror? O que estará se passando na cabeça de nossos jovens, afetos tristes que podem minar a potência de cada um em plena juventude? Como darão conta de seus lutos sem a possibilidade de fazê-los transitar pela palavra e pelo encontro com o outro? Que tamanho esforço será necessário para que frente aos fracassos e acidentes ao seu redor, não percam a alegria de viver?

O artigo da psicóloga Julieta Jerusalinsky, “Melancolia na infância e adolescência contemporâneas: entre o linchamento virtual e a política do ‘no touch’ ”, que compartilhamos aqui com vocês, traz alguns nortes para refletirmos sobre as consequências desta supressão da palavra para a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens.

Eliana Louvison, psicóloga do CPD
Erika Pelegrino, jornalista do CPD

 

 

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 “A melancolia na infância e adolescência contemporâneas é considerada, neste artigo, não como um “transtorno de depressão” isolado, e sim como sintoma produzido como resposta psíquica em uma sociedade extremamente individualista, maníaca e performática que leva a um modo de relação coletiva em que prevalece o registro do amoródio, pelo qual o sujeito, pendurado imaginariamente das redes sociais virtuais, pendula entre a fama e a difamação, ao mesmo tempo que produz formações persecutórias guiadas pela chave da especularidade no encontro com os semelhantes”.

 

 

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