Estamos roubando a confiança e a força vital de nossas crianças

“Gabriela tem pais que têm medo dela, porque não convivem com ela. Então, ao invés de dar limites, eles a colocam em um trono, ela passa a ser a rainha da família, e não mais um membro da família. Ela passa a decidir os programas, os cardápios, se ela vai mal na escola a culpa é da escola. Ela percebe cada vez mais que seus pais não tem autoridade. Uma criança que percebe que os pais não tem autoridade, fica maluquinha, fica insegura, ela precisa de gente que conduza a vida dela.” (Pediatra, Daniel Becker)

O protagonismo infantil na vida familiar começou a ser desenhado nos anos 60 e 70, e hoje a criança se transformou no personagem em torno do qual toda a trama familiar se desenrola. Em muitos lares, é comum vermos pequenos e pequenas dando a última palavra em decisões que afetam a todos da casa: qual escola frequentar; o local onde a família vai passar férias; o nascimento de um irmãozinho; o que/como/quando/onde a família vai comer. Participar destas escolhas é um bom exercício para desenvolver a autonomia, mas dar a última palavra, nunca!

Estamos dando aos nossos filhos e alunos um poder de escolha que não são capazes de sustentar. Quando pequenos, o único equipamento com o qual contam para tomar decisões são os cinco sentidos. O senso crítico só começa a ser desenvolvido a partir dos 13 anos. Antes disso, a criança acredita que pode tudo e não tem discernimento para dizer: “não vou tomar essa decisão porque não dou conta.” A criança não pode viver a experiência de fazer uma escolha errada, a não ser que não tenha outro jeito. Ela tem sim que escolher, se arriscar, mas com a garantia de escolher bem, pois a experiência do fracasso na infância compromete seriamente a construção da autoestima.

Dos prejuízos causados pelo protagonismo infantil, os mais preocupantes são a ausência de confiança e da agressividade, dois afetos essenciais para a existência humana.  A confiança é fundamental para o sujeito agir diante do inusitado, do imprevisto, do não planejado, e dar conta de suportar se tudo der errado. “Deixa eu corrigir minha rota, e vamos adiante. “ Sem este afeto, o ser humano não se afasta dos vínculos de proteção, não abandona a ilusão de garantia, comprometendo seu desenvolvimento. A criação de sujeitos que tenham autoconfiança não está sendo considerada na pedagogia e na educação familiar.

A agressividade é a força vital – pulsão de vida, na psicanálise – que move o ser humano em direção à preservação da vida, sempre que a sobrevivência, a integridade, o bem-estar estão ameaçados.  Funciona como antídoto para depressão, síndrome do pânico, é uma vacina em termos de saúde mental. O problema é que hoje a sociedade não está sabendo distinguir agressividade e ódio. Este desqualifica a agressividade, quando a acompanha. Para acabar com a violência gerada pelo ódio, a sociedade está inibindo a agressividade.

Confiança e agressividade estão sendo substituídos por medo e esperança. Dois afetos que impedem a ação, um pela expectativa de que algo ruim vai acontecer, outro pela expectativa de que algo bom aconteça. Ambos inibem a força vital. A questão é que a esperança é muito valorizada, romantizada, teologizada, mas é um afeto que, tanto quanto o medo, torna o ser humano passivo, inibido, recolhido. Em algumas situações a vida é tão cruel, que não resta nada mais para o sujeito do que medo e esperança. Mas no varejo da vida, estes dois afetos são terríveis, e hoje temos muitas crianças com medo e esperança. Não fazem tarefa, não precisa treinar para ler e escrever, repetir informação para memorizar. Acham que nada disso é necessário, tudo vai dar certo. Não, sem esforço, sem ralar, nada vai dar certo.

Edição: Erika Pelegrino, jornalista do CPD
Referência de conteúdo: Eliana Louvison, psicóloga do CPD
Foto da psicóloga Eliana Louvison, publicada na Folha de Londrina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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