Precisamos falar sobre o ódio

Ao contrário do medo, que como afeto (bio)político paralisa; o ódio movimenta, mas por vias tortas, não como a alegria, que nos vincula com a vida. 

Afetos (bio)políticos – Ódio

Por Rafael Lauro – site Razão Inadequada
Foto – Alberto Seveso

Podemos dizer que poucos conceitos são potentes como os afetos de Espinosa. Eles abrem um enorme campo de análise para melhor nos relacionarmos com a vida. Não é apenas filosofia de gabinete, Espinosa está nas ruas, no dia a dia, na política, nas relações.  Através do conhecimento – o mais potente dos afetos – passamos a identificar com certa clareza quais são os afetos que  regem a nossa vida. Podemos entender melhor o funcionamento deste circuito dos afetos, o modo pelo qual um sentimento, um corpo, uma biologia, se torna inseparável da política.

Recentes fatos da política brasileira nos remetem imediatamente ao ódio. Por todos os lados, estamos cercados de bocas espumantes, veias saltadas e olhos fulminantes. As televisões não desligam, as rádios tagarelam impropérios, está na boca do povo: “Canalha, pulha, ladrão, vagabundo, corrupto, vigarista, cafajeste, patife”. Quais são as consequências de ter no ódio o afeto (bio)político fundamental?

A simplicidade de um afeto torna-se complexa conforme vai se espalhando. Uma pessoa nos causa tristeza e reagimos odiando aquela pessoa. Deixamos de lado todas as circunstâncias daquela afecção e ligamos a tristeza causada àquela pessoa, objeto ou fato. O ódio está ligado à tristeza, e quando ficamos tristes, a nossa capacidade de pensar diminui.

Tristes, temos cada vez mais ideias inadequadas. Quanto mais entristecidos nos tornamos, mais confusos se tornam os afetos. E assim passamos a odiar a chuva por que ela alaga as nossas ruas entupidas de cimento. Passamos a odiar nossos amigos quando estes não dizem aquilo que queremos ouvir. Passamos a odiar, em suma, tudo aquilo que não toma nosso partido. O ódio liga, faz a ponte entre o estado do meu corpo e o corpo exterior que me afetou. Ele não fala da relação, ele diz apenas do estado do meu corpo e procura uma causa.

Já sabemos, não há falta, o corpo está sempre preenchido por afecções, seja de tristeza ou de alegria. O que pode o ódio? Do que este afeto é capaz? Esta é uma pergunta importante, pois somos odiosos demais! Ligamos prontamente a tristeza a uma causa. Tão ingênuos. Como poderíamos saber as causas com tanta frequência? Muito mais frequente é estarmos perdidos, cansados ou distraídos. Descobrir as causas reais de algo que nos afeta é raro, precisamos ter isso sempre em mente. Ao odiar, estamos é abrindo o caminho para a tristeza efetuar conexões raivosas, ligações perigosas. Teremos melhores chances de descobrir as causas de uma tristeza se, ao invés de prontamente a ligarmos a uma causa exterior, buscarmos a maneira pela qual a alegria nos afeta em uma relação semelhante. Por exemplo, Ao sermos ofendidos, precisamos entender em que ponto nossa existência é ofensiva, e se ela for adequada ao que somos, então não haverá necessidade de ódio para com o ofensor.

Tristes, só sabemos nos mover contra aquilo que odiamos. Ignoramos os conselhos de Zaratustra sobre a honra de se ter um inimigo. Abrimos a boca por pouca bobagem para cuspir mesmo que seja contra o vento. Manifestamo-nos pelo nada, mas contra tudo! Elegemos vilões sem heróis, pois não temos força para assumir a responsabilidade por nossas dores. Dividimos, separamos, excluímos, recortamos a realidade para o nosso mimo. Mia Couto escreveu sobre o mundo de quem tem medo, um mundo pequeno, cercado, para que nada possa fugir ao controle. O mundo de quem tem ódio é um mundo monocromático. Só há uma duas cores de grande contraste. Perdem-se todas as pequenas tonalidades, que são em verdade as grandes sutilezas. Preto e branco; ou vermelho e azul; ou ainda verde e amarelo.

Como nos movemos por este campo de afetos? “Quando a mente imagina aquelas coisas que diminuem ou refreiam a potência de agir do corpo, ela se esforça, tanto quanto pode, por se recordar de coisas que excluam a existência das primeiras” (Ética III, prop 13). Tornamo-nos saudosistas ou utópicos! “Amanhã ele vai ver! Ele me paga”, ou então “no meu tempo era diferente, antigamente não era assim!”. Ou pior: “Quem imagina que aquilo que odeia é afetado de tristeza, se alegrará; se, contrariamente, imagina que é afetado de alegria, se entristecerá” (Ética III, prop 23), Espinosa nos ensina que existem alegrias tristes, alegrar-se com a tristeza de alguém é um bom exemplo disso! Esforçamo-nos para que a coisa que odiamos seja afetada de tristeza e odiamos tudo aquilo que a afeta de alegria. Estas são apenas algumas poucas das consequências deste afeto.

Ao contrário do medo, que como afeto (bio)político paralisa; o ódio movimenta, mas por vias tortas, não como a alegria, que nos vincula com a vida. O ódio solta bestas ferozes e obedientes, instruídas para morder: “[Quem odeia] Esforça-se por afastar e destruir a coisa que odeia” (prop 13, corolário). Tristes,somos cada vez mais agressivos. Nasce a desonestidade intelectual e o interesse pelo entendimento raso. Difamamos, revidamos e fechamos os olhos para a pluralidade de posições, para a complexidade dos fatos, “A culpa é de fulano!”. Promovemos uma fé pelo unilateral e começamos a crer que tudo tem um lado só; e o nomeados de verdade. Acreditamos piamente em quem carrega nossa verdade sob os braços e a eles demonstramos nossa empatia, só a eles. Empatia seletiva é um recurso de proteção do próprio ódio, que se alia à mais profunda vontade de conservação. O ódio movimenta erupções: grandes demonstrações destrutivas sem nenhuma perspectiva de construção; a lava deixa o solo infértil.

Tristes, afirmamos cada vez menos. Tomamos gosto pela negação, o ódio tem a mesma propriedade do açúcar refinado: ele adoça e rouba o sabor. Aqui, não poderíamos deixar de lembrar Nietzsche quando diz que o ressentimento é um entorpecente. Odiando, nos afastamos da política de Espinosa, a da afirmação, a da constituição comum, baseada na alegria, na sinceridade e no amor; e vamos em direção a uma política de ódio, de negação, aquela que investe no poder e esquece-se da potência. A pergunta de Espinosa ainda é atual: o que pode um corpo? Neste momento, cabe perguntar, o que pode um corpo inundado de tanto ódio? Pouco… pouquíssimo… ou quase nada

 

 

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Não estamos aqui para maldizer a natureza humana, não estamos aqui para desprezar ou amaldiçoar o homem. Nossa intenção é clara: entender a maneira como os afetos nascem, se concatenam e circulam em nós e na sociedade.

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