Uma construção muito delicada

 Desancorados de nós mesmos, não raro, passamos a vida construindo nossos desejos a partir do olhar do outro. Enxergar a si próprio e identificar o próprio desejo parece ter deixado de ser algo natural, na atualidade, exigindo disposição para estar no comando da própria vontade. Quanto mais alienados de nós mesmos, mais enredados ficamos na arapuca dos prazeres compráveis, de objetos a afetos. O CPD tem abordado o tema em diferentes perspectivas, e esta entrevista com a educadora em finanças Cássia D´Aquino, feita por mim e publicada em antigo blog, há alguns anos, traz a relação com o dinheiro como um viés dessa discussão. Ela é educadora com especialização em crianças, pós- graduada em Ciências Políticas, autora de artigos e livros sobre educação financeira. Criadora e coordenadora do Programa de Educação Financeira em inúmeras escolas do Brasil.

Nesta entrevista, Cássia aborda o tema a partir da coragem de olharmos para dentro de nós para que coloquemos o dinheiro e o consumo trabalhando a nosso favor. Segundo ela, este é um processo de aprendizagem a longo prazo e deve ser iniciado na infância, o que não significa transformar as crianças em financistas mirins, mas oportunizar a construção dos pilares que, na vida adulta, sustentarão uma relação saudável com o dinheiro. Ao aprender a poupar, a criança aprende a esperar, ao doar parte de seu dinheiro,  aprende a levar o outro em conta, ao administrar seu dinheiro, aprende a fazer escolhas. “O que eu realmente desejo? Do que eu posso abrir mão?” São exercícios que poderão ajudá-la a conectar-se consigo mesma, a ir construindo um mundo interno que lhe servirá de âncora. “Esta é uma construção muito delicada, que exige um comprometimento dos pais”, diz Cássia. Para quem estiver disposto, ela dá orientações práticas sobre como fazer da mesada ou da semanada um bom instrumento para ensinar a criança a relacionar-se com o dinheiro e, ao mesmo tempo, a saber um pouco sobre si.

 

Quando começamos a associar o que consumimos a quem somos?

A partir da primeira metade do século XIX, começam as construções das ferrovias americanas rumo ao Oeste, gerando imenso enriquecimento de um pequeno grupo de famílias, em muito pouco tempo. Esse é o período em que se tem pela primeira vez o exibicionismo material e quando passamos a fazer uma confusão entre quem somos e quem queremos que o outro pense que somos. É um perverso jogo de engano, no qual você imagina que está convencendo os outros que é o que não é. Isso leva a um esforço permanente para comprar bens que farão com que o outro pense que “eu sou”, nos levando a viver em função da expectativa do outro. Perde-se muito dinheiro e energia.

A forma como nos relacionamos com o dinheiro revela quem somos?

Reflete parte do que somos, de como nos vemos, de como vemos o outro.  É muito interessante. Nossas inseguranças, aflições, ambições, temores, valores ficam expostos na maneira como consumimos e nos relacionamos com o dinheiro. Mas isso não se reduz apena a termos controle ou não dos gastos.

Quais outros aspectos desta relação devem ser considerados?

A pessoa pode ter perfeito controle sobre seus gastos e ter falhas graves do ponto de vista da educação financeira. Nas finanças, o controle e a ausência de dívidas não significam muita coisa. O interessante é se desenvolver em relação ao dinheiro considerando quatro grandes áreas: ganhar, gastar, poupar, doar. Temos que saber ganhar dinheiro, não digo enriquecer, mas ser capaz de descobrir nosso talento e torná-lo produtivo para atender nossas necessidades e desejos. Temos também que saber que a vida é fazer escolhas e é assim também com o consumo. Não é possível comprar tudo o que desejamos. E é aí que a coisa se complica, pois não é do ser humano abrir mão do que desejamos, queremos viver todas as possibilidades. E temos a facilidade do crédito que confunde este mundo imperial das escolhas, nos ilude nos fazendo crer que podemos ter tudo. E, se realmente quisermos uma relação madura e equilibrada com o dinheiro, é preciso saber guardar e contribuir para melhorar a vida de outras pessoas.

Para isso é preciso antes de tudo autoconhecimento?

É preciso pelo menos saber que organização financeira não é determinada pela genética, muito menos é um dom divino, então viver endividado é uma escolha. A pessoa precisa olhar para as condições em que está vivendo. É espantosa a quantidade de gente que não sabe nem o quanto ganha. É preciso chamar para si a responsabilidade, colocar no papel quanto ganha, quanto e como está gastando, como deseja estar daqui a 15 anos, como pretende chegar lá. Não é um processo fácil, a pessoa precisa olhar para seus porões mais escondidos, e não vai gostar de quem vai encontrar lá, mas essa atitude pode impulsioná-la. Ou rearranja seus objetivos, ou se coloca em outra disposição para alcançá-los. Ela assume o controle de sua vida, e isso traz tanta satisfação que pode despertar o desejo de mudar outros aspectos de sua vida, também.

Esse é um processo que deve começar na infância, de que forma a mesada pode ensinar a criança a se tornar um adulto que se relaciona bem com o dinheiro?

Em primeiro lugar os pais devem ter a lucidez de que se trata de um instrumento de educação que, se usado corretamente, vai ensinar a criança a administrar um pequeníssimo orçamento. Nesta experiência, ela terá que aprender a fazer escolhas, abrir mão de algo que queira, vai errar, vai experimentar a falência, o que é muito importante.

Você diz que o efeito educativo vai depender de os pais utilizarem a mesada corretamente. Como?

Se os pais querem que a mesada sirva como instrumento educativo, é preciso tratar isso como um compromisso. O dia e a quantia têm que ser respeitados, não pode esquecer e dar outro dia, ou tirar a mesada porque a criança tirou nota baixa ou foi malcriada. Se o acordo com a criança é constantemente rompido, ela não terá como se planejar, pois nunca sabe quando e quanto vai receber. Parece fácil, mas não é. Se os pais não se comprometem de fato, acabam cometendo tantas bobagens e equívocos, que o resultado pode ser pior do que não dar mesada.

Não usar a mesada como forma de disciplinar a criança, cumprir o dia combinado de dar o dinheiro, quais outras orientações práticas você daria para os pais?

Crianças até 11 anos devem receber semanada, elas ainda não têm recursos para administrar o dinheiro e planejar seus gastos por um tempo muito longo e devem ser estimuladas a fazer uma poupancinha. Os objetivos para o uso do dinheiro guardado devem ser traçados a um prazo curtíssimo, para que consigam alcançá-los. Isso as deixará encantadas e estimuladas a traçar novos objetivos.

Depois dos 11 anos, as crianças podem passar a receber mesada, os objetivos para a poupança podem ser mais ambiciosos, três meses, seis meses, no máximo um ano. A quantia recebida também deve ter um reajuste, pois  o convívio em grupo aumenta, começam os primeiros namoricos e aí os gastos são um pouquinho maiores.

Em relação à quantia, os pais devem considerar o orçamento familiar e a maturidade da criança e do adolescente. É importante saber do que o filho dá conta ou não.

Como agir com a criança e o adolescente diante da falência?

Primeiro, é importante saber que não se trata apenas de dar o dinheiro. Os pais precisam comunicar o que desejam com a semanada, a mesada, e ensinar como fazer um orçamento, anotar os gastos. Muitas vezes, é a falta dessas explicações que leva os filhos a falirem. Já as falências que se repetem podem indicar que o valor está muito alto ou muito baixo. Se a criança ou o adolescente recebem quantias muito elevadas, não sentem necessidade de se organizarem, e acabam perdendo o pé.  Já vi criança que recebia R$ 380,00 porque os pais calculavam o lanche da escola a partir da experiência deles com gastos com restaurante. Também já vi adolescente de 13 anos receber mesada de R$ 15,00. Nesse caso não podemos falar em falência, mas em impossibilidade de organização. Outra situação que exige atenção é mudança de comportamento. O filho que sempre se organizava e passou a nunca ter dinheiro para nada, pode estar comprando drogas.  Aquele que de repente consegue fazer o dinheiro render muito mais do que costumava conseguir, pode estar vendendo droga e os pais se enganam achando que estão se tornando administradores. Estas situações não são raras de acontecer. Os pais têm que ficar mais espertinhos. Não é apurar como o dinheiro foi gasto centavo a centavo, mas prestar atenção no filho que tem para não acabar descobrindo mais tarde que ele nunca foi o que você imaginou.

 Quais outros instrumentos podem ser utilizados para a educação financeira?

Até mais eficiente que a mesada é o exemplo dos pais. As crianças estão atentas à maneira como os pais se relacionam com a vida, inclusive com o consumo, com o dinheiro.  Não significa, evidentemente, que se os pais não têm uma relação tranquila com a grana, os filhos estão condenados a repetir esse comportamento.  A relação mais bonita que temos com as nossas crias é quando conseguimos dizer: ‘olha comigo foi diferente, era outro país, outro mundo, outra moeda; comigo não funcionou, não aprendi, mas quero muito que com vocês seja diferente e vou me esforçar bastante para isso’. Essa baixada de guarda humaniza os pais e vai livrar os filhos de muitos anos se debatendo com essa dificuldade. Então, vamos aprender juntos e descobrir como a vida pode ser muito mais cheia de encantos e menos angústias quando a gente lida melhor com a grana.

O que a criança pode e o que não pode quando se trata do orçamento da casa?

Abrir para os filhos quanto se ganha e falar sobre suas dívidas são erros muito frequentes. Dar educação financeira não é dar a eles a senha da sua privacidade. Deixar que acessem algumas partes do nosso mundo é dar a eles um poder para o qual ainda não estão preparados. O quanto ganhamos é uma informação importante demais para que nossos filhos saibam, assim como não é responsabilidade deles as nossas dívidas. Chamar a criança para ajudar a fazer a lista de compras é uma boa forma de ela participar do orçamento, mas este momento não pode virar uma lavação de roupa do tipo “você não sabe quantas dívidas eu tenho”. Seja adulto, você fez as dívidas, não queira dividir com seus filhos esta responsabilidade. A publicidade vem nos vendendo a ideia de que as crianças são brilhantes, sabem tudo. As crianças são ótimas com computador e ponto. Elas não têm maturidade para lidar com aquilo que pertence ao mundo adulto.

Erika Pelegrino, jornalista do CPD

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