A menina que tinha labirintos no cérebro

A fase escolar de Marina Miyazaki Araújo não foi das mais fáceis. Era muito criativa, gostava de aprender, compreendia o que lhe era ensinado – “Muitas vezes, até mais rápido que os demais alunos” – mas, no papel, o que estava na sua cabeça saía bagunçado, fora do lugar. Outras vezes, tudo ficava direitinho. Ela não entendia o que acontecia. E de tanto ser corrigida, foi se retraindo. Muito tempo depois, descobriu que tem dislexia. E, de pura teimosia, virou escritora. “Fui mexer no que é mal resolvido. Sempre me meti a fazer aquilo que não sabia. Sem entender nada de futebol, fui fazer um blog sobre o tema. E, mesmo com os apuros que passei na escola com escrita e leitura, resolvi escrever livros”, conta. Ela foi fazer o que na escola, com as correções sem fim,  tentaram convencê-la de que nunca seria capaz. Mas foi fazer do seu jeito. O livro ˜Dislexicando” é contado por uma criança e escrito sem correções.  E o resultado a levou para FLIP , a Festa Literária Internacional de Paraty (RJ). Escreveu outros livros também, sempre revolvendo o que é mal resolvido para muitas crianças.  “Pai Francisco” conta  sobre um garoto  e sua relação com o pai presidiário, e “Monstros existem”, ainda a ser lançado, fala sobre perdas. Mas estas são outras histórias, que ainda iremos contar. Agora vamos ler a garota com “labirintos na cabeça”, por onde as palavras se perdiam.

Antes de começar a conversa com Marina, um trecho do seu livro, para apresentá-la a vocês.

“Era uma ves uma menina disléxica qe não sabia que era diléxica e também não sabia o que era dislexia. Quando soube que Dislexia era prorblema na leitura e na escrita que algumas crianças e até adultos podem ter, ela começou a dislexicar mais à vontade. Saber o qe era dilesxiai ajudou e atrapalhou. Ajudou pois ela comçou a entender por que erra tanto e passou a reconhecer os tipos de erro que cometia, assim, poderia pedir ajuda a algum adulto para tentar melhorar (mas nunca pediu ajuda por qe tinha vergonha e medo). Até qe um dia, já adulta, resolveu contar para todos sobre a sua dislexia, e ninguém acreditou e ela nem se importol. E passou o resto ad vida dilexscando profissionalmente.”

Por que escrever o livro em “dislexiquês”, como você diz?

Você conseguiu ler?

Sim, com facilidade, inclusive.

Essa é a intenção, mostrar que é possível entender esta escrita, que não se trata de um bicho de sete cabeças.  Uma vez, ao menos, inverter os papéis, colocar o não disléxico no lugar ocupado a vida toda por quem tem dislexia.

Uma vingancinha?

Risos. Um pouco, talvez. Foi uma forma de eu escrever livremente, sem me preocupar com correções.

As correções têm um efeito nocivo?

Da forma como são feitas, sim. A escola, o professor, deixam de ver o aluno e passam a enxergar apenas a dislexia. Todo o esforço feito para acertar, a história que tenta contar na redação, o desenvolvimento correto do exercício de matemática, tudo é desconsiderado. Vê-se apenas os erros de ortografia, o resultado errado pela troca de algarismos. São correções infindáveis. A tal ponto que, por medo e vergonha, o aluno vai desistindo de ler, escrever, e, às vezes, até de aprender. A criança fica escondida atrás do erro, quando o mais importante é ela. A dislexia é apenas um micro traço, e não o seu todo.  Não podemos nos esquecer que saber ler e escrever deve servir para a pessoa usar e não para ser usado contra ela.

Sabemos que não há fórmulas. Mas como você pensa que deveria ser a atenção a este aluno?

Não sou especialista em nada. Falo a partir da minha experiência. Com exceção de algumas que precisam de um acompanhamento mais profissional para atingir os objetivos escolares, a criança com dislexia deve ser tratada da mesma forma que os demais alunos. Deve ser cobrado dela que faça as atividades como devem ser feitas, os erros devem ser corrigidos, mas sem desconsiderar todo o resto.Tratar igual, considerando a diferença. Este é o ponto. “Você acertou o processo para chegar ao resultado, mas trocou os números.” “Muito boa a história da sua redação, só estas palavras que você trocou as letras.” E isso serve para a questão do ensino/ aprendizagem de todo aluno, independente de ter alguma condição específica ou não.

Você está dizendo que a dislexia não deveria ser tão valorizada?

Eu penso que há um esforço muito grande em “consertar” esta criança. Com essa onda de diagnosticar e rotular cada comportamento fora do padrão, a criança é levada para vários especialistas e ela mesma não entende o que está acontecendo, acaba se sentindo como alguém que não é normal. O resultado disso compromete não só a aprendizagem escolar, mas também as relações afetivas e profissionais futuras. Por causa de erros de leitura e escrita, a criança é reprovada para a vida. Costumo dizer que não se trata de uma dificuldade de aprendizagem, mas de ensinagem. O adulto acredita que sabe ensinar e que é o aluno que não sabe aprender. No livro, a personagem alerta as crianças para que fiquem atentas “aos primeiros sinais dessa apavorante disfunção do adulto, e lembrem que o erro não está no seu jeito de aprender, mas no de ensiná-las.”

  “Ela não gostava de ser chamada de disléxica, porque a dislexia era só uma pequena parte de tudo que ela tinha na cabeça. “

“Não percebem que não é porque não faz tão bem algumas coisas que não é inteligente. Não queria que as crianças como ela se sentissem burras como se sentiu por muito tempo. “

Ensinagem?

Sim. Lembrando que falo a partir de minha experiência e não de conhecimento científico. Esta criança, muitas vezes, compreende a explicação dos professores mais rápido que as demais, mas uma desorganização no cérebro para guardar as coisas aprendidas a impede de explicar corretamente o que entendeu. Ela sabe que o certo é paçoca, mas escreve copaca. Ela sabe que é para escrever 54, mas escreve 45. Erra o resultado do exercício, porque troca os números, mas o processo para chegar à resposta está correto. Isso não é dificuldade de aprendizagem. Esta criança aprende, mas precisa de um tempo a mais para buscar as informações na memória. O erro realmente grave é o cometido por quem ensina, ao desconsiderar todo o saber deste aluno e focar apenas em seus erros.

“Ela não achava nada engraçado entender a explicação da professora, mas errar o exercício porque copiou o número ao contrário. “

“Distúrbio de ensinagem, é uma dificuldade que aparece no adutos quando tentam ensinar alguém. “

 

São os labirintos no cérebro, a que a garotinha se refere no livro.

Isso. É como se as informações aprendidas se perdessem dentro do cérebro, exigindo um tempo maior para que fossem encontradas. Imagine uma casa onde cada objeto não está onde deveria estar, e a criança precisa de uma colher. Ela tem que procurar em todos os ambientes, mas tem alguém a apressando, então ela pega o primeiro utensílio mais parecido com uma colher e leva. Muitas vezes, ela sabe que pegou um garfo, outras vezes, ela percebe o engano só depois de um tempo. E tem situações em que fica vagando pela casa, sem encontrar nada.

Por que escrever a partir de uma criança?

Não há espaço para a escuta da criança. Todo o conhecimento sobre o que é dislexia, tratamentos, uso de medicamentos, é construído sem escutar quem tem esta condição. O mesmo ocorre com as orientações que são dadas para facilitar a aprendizagem, como ler a prova para o aluno. Eu, por exemplo, não consigo prestar atenção em alguém lendo para mim, já para outra pessoa isso pode funcionar. Não dá para chegar com um saber sobre como a criança deve aprender, sem escutá-la. Cada uma vai encontrar seu melhor jeito de lidar com a dislexia. Para isso, ela precisa de tempo, de ser vista além dos seus erros e de ser ouvida. Ela precisa se conhecer, e não é sentindo medo e vergonha de errar que vai se aventurar nessa descoberta.

“Pensam que conversando do geito “Deles”, as crainaça conta tudo, mas certas coisas criança não conta de jeito nenhum.”

“Não posso conversar agora, estou ocupado descobrindo o que é melhor para você.”

 

Ensinagem, criativosa, dislexiquês, desensinolálico, bagunçalidade. Você gosta de inventar palavras. Como surgiu o “Marinês”?

A dislexia me levou a pensar sobre como vivemos de acordo com um determinado padrão de escrita definido por um grupo de pessoas. De novo, especialistas criam as regras, as mudam, e nós devemos segui-las. Claro, que é necessário que exista um padrão para permitir que todos se comuniquem. Mas por que não uma liberdade para a criação? Esta invenção de palavras foi uma provocação (risos), para mostrar que é possível se comunicar fora das regras. Não há necessidade de explicar o significado de nenhuma destas palavras inventadas, todos entendem. Elas podem não ter um valor para linguistas, mas a partir do momento em que eu as invento, elas existem. As palavras devem nos servir, e não nos escravizar. Seria muito menos traumático, especialmente para aqueles que têm dislexia, se tivéssemos essa liberdade.

Texto – Erika Pelegrino, jornalista

Foto – Gustavo Carneiro, publicada na Folha de Londrina

 

Serviço:

Dislexicando – Marina Miyazaki Araújo

Editora Pólen

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