O amor nas palavras do sertanejo de Guimarães Rosa

O amor é um fazer, diz o psicanalista Christian Dunker. Lá no mundão sem fim do sertão, bem poderia Riobaldo concordar: um fazimento sem fantaseio, talhado na vivência. Se assim é, a pergunta a ser feita, diz Dunker, não é se acreditamos no amor, mas que amor fazemos acontecer para a vida que queremos realizar.

E o sertanejo de Grandes Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa, que se consome de amor por seu amigo Diadorim, olha para dentro, investiga, duvida, mas acontecer mesmo, ah isso não podia deixar.  Na simplicidade de quem “navega mal nessas altas ideias” – “Sou muito pobre coitado” – Riobaldo coloca em palavras o sentimento que não ousa por em ação. Se havendo com desejo, vergonha, entre bambear e quase ceder às emoções e, fortemente, reprimi-las, vai tecendo todo tipo de ideia sobre o amor.

Então, que fale Riobaldo:

“Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei; caceteio. Mas, porém, é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta. “

“Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor? “

“De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa…”

““Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo! “ Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso, sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. “

“Teve um instante, bambeei bem. (…) Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou – os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele…”

“O senhor saiba – Diadorim: que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia. “

“Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. “

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. “

“O amor, já de si, é algum arrependimento. “

“Demediu minha ideia: o ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de; amor é a gente querendo achar o que é da gente. “

“Ele me deu a mão; e daquela mão eu recebia a certeza dos olhos, os que ele punha em mim, tão externos, quase triste de grandeza, deu a alma em cara (…) A amizade nossa, ele não queria acontecida simples, no comum sem encalço. A amizade dele, ele me dava, e amizade dada é amor…”

“Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por destino, fosse do antigo do ser, donde vem a conta dos prazeres e sofrimentos.”

“O amor de alguém, à gente, muito forte, espanta e rebate, como coisa sempre inesperada. “

“Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz. “

“Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. “

“Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece mesmo de verdade. “

“Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais de ciúme nem de medo. “

 

Imagens

Reprodução de ilustrações de Poty Lazzarotto para Grandes Sertões: Veredas

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“Sem a palavra, o amor não acontece. Não adianta!”

O amor não é nem real, nem ideal; nem empírico, nem transcendental, mas uma prática, um fazer. Por isso quando alguém nos pergunta se acreditamos no amor podemos traduzir a pergunta por: que amor você faz acontecer para a vida que você quer realizar?

 

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