Criança no museu, adulto civilizado!

 

Ser civilizado requer uma série de capacidades que nos permitem controlar emoções, adiar gratificações, saber ficar quieto e reformular o trato social quando não estamos agradando, respeitar culturas diferentes, saber o momento certo de dar a nossa opinião. Ser civilizado se aprende! É uma aquisição obtida por meio do desenvolvimento das funções executivas. Estas são estimuladas ao sermos expostos a uma série de situações, desde pequenos, como frequentar museus, teatros, festivais, igrejas, passeios pelas ruas.

Você pode estar pensando: “Ah, eu adoraria, mas meus filhos não se comportam!” Não se preocupe, com os outros pais não é diferente. Todos têm essa preocupação. Nada como trocar experiência com uma mãe de três crianças, que sempre frequentam esses ambientes, para saber como ela age.

Stella Meneghel, 41, jornalista, empreendedora, e mãe de Manuela,7, Cassiano,5, e Rafael,3, diz que não abre mão de levar os filhos para esses passeios e ensiná-los a se comportar adequadamente.  Ela compartilha alguns de seus recursos: conversar e explicar o que vai acontecer em cada um desses lugares e respeitar o limite de tempo da criança.

O primeiro passo de Stella é, antes de sair de casa, explicar muito bem para os filhos a experiência que vão viver. Segundo ela, não dá para abrir a porta do carro e colocar a criança em um museu, em uma igreja para assistir um casamento, sem explicar antes como é o ambiente, o que vai acontecer lá, como deve ser o comportamento em um lugar desses. “Sempre falo, antes de chegarmos ao local, o que nos espera. No parque a gente corre, se suja, fala alto. No teatro, não. No teatro é preciso ficar em silêncio, todos querem ouvir e precisamos respeitar quem está se apresentando. No museu, mesmo que seja irresistível, não podemos tocar. Aviso como devem agir para aproveitarem o que o espaço oferece e não perderem a diversão.”

Feito isso, o segundo passo é respeitar o limite de tempo da criança. “Observar isso é muito importante. Ficar além do que eles conseguem é o que gera as birras.” Mas, saber esperar também faz parte do aprendizado. “Se estiver muito chato para eles, podemos sair. Mas, não podemos sair, por exemplo, se um deles está gostando. Então, precisa esperar.” Stella avisa, porém, que nada é um mar de rosas. “Isso é o que a gente se esforça para fazer, cada dia é uma surpresa com eles.”

Assim, mesmo sem saber, Stella está colocando os filhos em situações que estimulam o desenvolvimento das funções executivas, essenciais para que se tornem adultos civilizados. Mas o que são funções executivas? Quem nos explica é a psicóloga, especialista em neuropsicologia e uma das autoras deste blog, Maria Cecília Balthazar. “As funções executivas são um conjunto de vários e complexos aspectos da nossa capacidade de pensar, se referem a todos os aspectos cognitivos e metacognitivos, que são conclusões, pré-suposições, suposições, intenções, modos de operar de si mesmo e dos outros. Alguns denominam de “teoria da mente”.”

Todos esses recursos e funções, de acordo com a especialista, permitem ao sujeito exercer o controle e regular seu comportamento às exigências internas e externas, possibilitando a adaptação aos ambientes e circunstâncias, pondo em curso a auto-organização e direcionamento de metas.

Os três subcomponentes cognitivos das funções executivas:

Autocontrole ou Controle Inibitório:  capacidade de resistir às tentações e ou distrações e fazer o que é certo ou desejável. Essa condição permite a todos nós e em especial crianças, focar atenção, silenciar e manter a concentração na tarefa.

Memória de Trabalho ou Memória Operacional:  capacidade de lembrar, manter na mente dados, informações recentes e localizar as remotas, para serem manipuladas. Essa habilidade é necessária para toda e qualquer tarefa e, nas tarefas cognitivas, facilita a correlação entre assuntos, fazer cálculos mentais, organizar e categorizar e estabelecer ordem de prioridades, hierarquizar as metas das tarefas.

Flexibilidade Cognitiva:  capacidade para usar pensamento criativo, oferecer soluções, ajustes para adaptar-se às demandas e circunstâncias. Essa habilidade permite a utilização de imaginação e criatividade. A tolerância às frustrações e aprendizagem por assumir e entender erros, dificuldades, ser receptivo aos feedbacks externos, críticas e buscar novas formas de solucionar situações e agir. Em outras palavras, não persistir em soluções conhecidas ou desejadas que não se prestam às situações problema.

 

Funções executivas podem exigir diferentes processos cognitivos:

Planejamento:   habilidade de elaborar um plano de ação, de “pensar antes” e estipular as etapas para atingir o objetivo proposto.

Atenção seletiva:  habilidade de selecionar apenas o que é mais importante para realizar a tarefa, em dado momento e não dispersar a atenção.

Monitoramento:  habilidade metacognitiva que se refere à possibilidade de checar e monitorar os próprios processos mentais ou a própria realização, para verificar se está saindo como desejado e previsto.

Organização:  competência de sistematizar informações e materiais necessários à execução da tarefa.

Priorização: capacidade de separar ideias principais e detalhes relevantes, ordenar as informações com base em sua importância relativa para desempenhar a resolução ou consecução da situação-problema.

Manejo do tempo: capacidade de otimizar, estimar o tempo disponível para realizar uma tarefa e ajustar adequadamente. Em conjunto com a organização e priorização, essa habilidade é crucial para o planejamento da ação.

Atenção sustentada, focada ou concentração: capacidade do indivíduo em manter e sustentar por um período prolongado de tempo a tenção sobre um estímulo, tarefa, mantendo a resposta consistente e pertinente à atividade proposta, ao longo da execução.

Iniciação: capacidade de persistir em direção ao objetivo, apesar das outras demandas que competem com essas.

Regulação emocional: processo complexo caracterizado pela expressão de emoções de forma controlada. Inclui a capacidade de reconhecer e nomear as próprias emoções, sobretudo manejar sua intensidade e modular a expressão de forma adequada, adaptativa aos vários contextos sociais. Importante para alcançar o objetivo, controlar e direcionar o próprio comportamento.

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