Essa criança é agitada!

“(…) muitos diagnósticos feitos pelo senso comum expõem as crianças a tratamentos, inclusive medicamentoso, equivocados e prejudiciais para seu desenvolvimento futuro.”

Recentemente as pesquisas desenvolvidas nos campos da neurociências e da psicologia têm contribuído para aumentar a compreensão sobre o funcionamento cognitivo e emocional de crianças com sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Quando esses sintomas se manifestam de forma associada e comprometem o desenvolvimento e o desempenho mental, psíquico e social de uma criança, podem caracterizar o que hoje é denominado, pelo Manual de Estatística e Diagnóstico de Transtornos Mentais 5 (DSM-5) de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Os sinais e sintomas de desatenção e hiperatividade são precisos e sempre possíveis de serem diagnosticados por um bom neuropediatra ou neuropsicólogo, mesmo porque em muitos casos esses sintomas estão relacionados à deficiência ou disfunção neurológica.

Em função da ampla divulgação sobre os prejuízos que o TDAH pode trazer para a aprendizagem escolar e para adequação social, encontramos muitos diagnósticos feitos pelo senso comum, que apressados e equivocados, expõem as crianças a tratamentos, inclusive medicamentoso, equivocados e prejudiciais para seu desenvolvimento futuro.

Sobre isso estive observando e pensando, pensando e observando e fui me dando conta de como é fácil e possível concluir que uma criança é hiperativa, o que no final das contas pode contribuir para a alta porcentagem de pequenos pensados com TDAH, sem que nenhuma disfunção neurológica seja responsável por isso.

Para tratar de uma possível construção de uma criança hiperativa vou inventar um personagem que vai me ajudar a contar essa história. Vou escolher um personagem do sexo masculino, pois os meninos são na maioria das vezes os protagonistas dessa história. As meninas, por razões que ainda desconheço escapam ilesas dessa construção.

Tico é um menino muito alegre e só é alegre porque ainda muito pequeno vive experiências muito agradáveis e, vive experiências muito agradáveis porque tem o privilégio de ter pais, babá, avós, tios muito interessados em lhe apresentar o mundo de forma que ele sempre acredite que ele é capaz de encontrar soluções para problemas e obstáculos que possam lhe parecer impossíveis.

Assim, a famosa autoestima já está sendo construída no berço.

Tico se acha o máximo!

Se acha tanto que anda com 9 meses, acha que fala aos 18, pois mesmo que sua fala mais pareça com o “mandarim”, todos a sua volta o entendem e com ele se comunicam como se já falasse um português castiço.

E assim caminha Tico.

Passados 6 a 9 meses dos seus primeiros passos, ele vai dia a dia se descobrindo um malabarista. Equilibra-se no chão, mapeia a coreografia da sua casa com o rigor de um bailarino e domina as quinas das mesas e o mapa dos móveis, corredores e portas.  Escala cadeiras e sofás! 

É preciso lembrar que Tico tem algo de especial. Sua inteligência corporal, provavelmente de herança genética, contribuiu muito. Adora escadas e seus degraus o seduz em lojas e restaurantes. Certo que os domina, nem se dá conta de que tem sempre um cuidador por perto.

Vai sempre computando suas conquistas para si mesmo e nem se dá conta dos galos na testa e os roxos na canela. Na queda ainda não aceita o gelo que controla o edema, mas aceita o Hirudoid que reduz o roxo da queda.

Tico que já nasceu alegre e de cabeça erguida e não cabe em si mesmo quando descobre que pode fazer tudo e mais um pouco que os adultos a sua volta já faziam.

Autonomia sobre seu corpo, ilusão de sucesso sobre suas aventuras.

Alegria!

E para comemorar Tico repete uma, duas, trinta, cinquenta vezes suas conquistas e vai aprimorando dia a dia sua habilidade motora.

Ao seu redor, bem perto ou à alguma distância ressoam a frase profética: Esse menino é agitado!

Tico, como já disse está muito bem acompanhado! Os cuidadores a sua volta também são adultos alegres, com a vida indo muito bem e quase todos hiperativos em busca de seus sonhos e desejos.

Mas Tico vai encontrando em seu caminho adultos sem disponibilidade ou preparo para viver junto com ele essa alegria intensa e ameaçadora.

Na loja de departamento onde Tico se diverte entre as araras de roupas dependuradas, e faz delas um labirinto onde brinca de esconde e esconde, a vendedora ressoa:  Esse menino é agitado!

Tico se delicia com buracos da calçada da cidade, e entre eles salta como um canguru australiano! E um velho de 26 anos, ressentido com a sua falta de vontade de pular os obstáculos da própria vida, ressoa: Esse menino é agitado!

Tico sobe e desce a escada rolante do shopping encantado com a mágica do movimento, e o guarda ressoa: Cuidado! Esse menino é agitado!

Tico sapateia quando alguma emoção não cabe no seu próprio corpo e, chora intensamente quando seu corpo não dá conta dos desejos que queria realizar. Como ele mesmo diz: Eu queria.! E os educadores desavisados ressoam: Esse menino é agitado!

As sementes do futuro diagnóstico de TDAH foram plantadas, mas um filósofo, amigo da mãe de Tico esclareceu: É uma alegria corporal!

E ela acreditou!

Acreditou tanto que leva Tito aos museus (onde ele participa de visitas guiadas), a festas de casamentos, (onde ele dança o tchan), a velórios (onde ele observa e fotografa os túmulos ao seu redor), a aulas de música e canto onde ele se diverte um monte.

Sementes foram lançadas para a construção de um candidato a TDAH.

Por que será que não germinaram?

Eliana Louvison, psicóloga do CPD

Meu filho tem TDAH

Tico com certeza corria o risco de ser diagnosticado erroneamente com TDAH e acabar entre as tantas crianças que passam a infância sob os efeitos da ritalina. E isso porque basta um comportamento que fuja aos padrões, e o veredito está dado: Hiperativo! Ritalina! E temos uma legião de crianças dopadas.  A banalização do diagnóstico tem outra faceta, a meu ver, igualmente nociva. Crianças e adolescentes que  crescem sem o diagnóstico correto, afetando sua autoestima.  Vivi isso.

Enquanto jornalista, fiz muitas reportagens sobre  como uma sociedade hiperestimulante estava medicando sem escrúpulos crianças que não tinham o transtorno. Assim, fiquei reticente quando meu filho mais velho foi apontado como hiperativo e com indicação para ritalina.

Quando bebê, o sono era agitado, dormia pouquíssimas horas por noite. Garotinho, adorava correr, brincar, não parava um segundo. O mundo não tinha parada para ele, tudo era motivo de exploração. Lindo de ver. E também cansativo para cuidar. Não tem como negar. Mas o encantamento com suas descobertas, compensavam tudo. Um garoto esperto, que adora subir em árvores, correr, pular, curioso. Claro que no convívio social sempre algumas críticas, uns olhares de soslaio para aquele garotinho – e para a mãe –  que não sabia se “comportar”.

O sono muito agitado, me levou a médicos. Quiseram medicar, mas achei exagero. Fui contornando com florais. Até que chegou a fase de alfabetização. Quanta dificuldade!  A situação se complicou, não acompanhava a evolução dos amiguinhos e aí começou o sentimento de não ser capaz. Vai para psicopedagoga, tenta neurologistas, e a fase escolar vai se arrastando.

O diagnóstico seguro, bem feito para confirmar de fato o TDAH, sem risco de medicar uma criança alegre, disposta, como hiperativa, chegou aos 14 anos. Com ele, a medicação, mas também um trabalho com psicopedagoga. Remédio apenas não funciona! O grande desafio é diagnosticar corretamente. Fiquei titubeante durante muito tempo, não queria meu filho medicado, e isso trouxe prejuízos a ele. Comprometeu sua autoestima e ele ainda carrega esta marca. Os abusos em medicar crianças para controlá-las com mais facilidade, sem dúvida alguma é extremamente nocivo. Mas não diagnosticar e não tratar uma criança com TDAH, também traz muitos prejuízos. (Erika Pelegrino, jornalista)

Curiosidade

Desatenção e hiperatividade ao longo dos séculos

 

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