A ousadia de pensar sobre si mesmo

É verdade que pensar dói!

“Os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, mas sim quando a vida os obriga outra vez e muitas outras vezes a se parirem a si mesmos.”

Gabriel Garcia Marques

É comum pensarmos que o que une as pessoas é o amor e, portanto, garantia de uma trama muito bem tecida e harmoniosa. Também é comum acreditarmos que autoestima, principalmente quando positiva, só traz prazer e serenidade. Mas nossa experiência nos mostra, todos os dias, que não é bem assim.

O que será que acontece? O AMOR, tão bem cantado em verso e prosa, não é suficiente para a autoestima, e nem mesmo para amar e ser amado?

Logo nos vem cabeça a ideia de que algo se opõe ao amor – um possível vilão, que complica, atrapalha, dificulta e justifica a insuficiência do amor para nos garantir relações felizes e bem-sucedidas – o ÓDIO! Mas sabe-se que o ódio é um sentimento fundamental em toda e qualquer relação objetal, intra ou interpessoal e que participa ativamente da construção das relações afetivas.

Muito me agrada a busca de resposta de Wilfred Bion (1897-1979), psicanalista do séc. XX que ficou conhecido principalmente pelo seu trabalho no Tavistock Institute, em Londres e que na década de 1970 participou de vários seminários no Brasil.

Para ele a relação do sujeito com ele mesmo e com os outros se faz através de sua capacidade de estabelecer vínculos entre as partes de si mesmo, assim como entre as pessoas que fazem parte de sua vida. Bion defende a ideia de que não basta a oposição amor/ódio para dar sentido aos conflitos intra e interpessoal, assim como não são os únicos que participam da construção da autoestima e do sentimento de identidade e até mesmo do estabelecimento dos laços afetivos e sociais.

Além dos clássicos vínculos de AMOR e de ÓDIO, considera o vínculo do CONHECIMENTO e, decorrente deste, o vínculo do RECONHECIMENTO (elaborado por David Zimerman) como fundamentais para a relação do sujeito consigo mesmo e com as relações afetivas que estabelece no decorrer de sua vida.

Para Bion, não basta a oposição amor/ódio para dar sentido aos conflitos interpessoais porque menos amor não é o mesmo que sentir ódio, menos ódio não significa amor e amor não é o contrário de ódio, assim como ódio não é o contrário de amor.

O vínculo de menos amor se refere a uma oposição à emoção do amor e não necessariamente a um vínculo de ódio. E, o vínculo de menos ódio se refere a uma oposição à emoção de ódio e não necessariamente a um vínculo de amor. Além disso dependem da capacidade de cada sujeito e dos sujeitos envolvidos no vínculo de lidarem com a frustração e o sofrimento frente a percepção das fragilidades e limitações inerentes às experiências afetivas, o que é fundamental para que desse caos se faça a integração.

Essa integração será possível a partir de nossa capacidade de pensar e, pensar quer dizer saber de si, saber do outro e saber de NÓS.Como não nos interessa aqui por em questão as concepções de Bion, e sim tomá-las como referência para pensar a forma de como estabelecemos nossos vínculos com nós mesmos e com os outros, vou por meio de exemplos provocar algumas ideias a respeito.

Vínculo de menos amor /oposição à emoção do amor

Em nome do amor o sujeito opõe-se à obtenção da emoção do prazer. A manifestação externa adquire a aparência de amor que, no entanto, é falsa, o que não significa que esteja havendo ódio.

Principalmente nos tempos de hoje, não é difícil sermos uma mãe superdedicada a seu filho e não desfrutar do prazer de estar com ele, cumprindo apenas o papel social e de mãe ideal.

O que nós verdadeiramente gostaríamos é de nos dedicarmos aos nossos mais diferentes e legítimos desejos, quase sempre alheios às demandas de nossos filhos, mas…

Assim, amamos intensamente nosso filho, porém o fazemos de forma simbiótica, possessiva, sufocante, refém dos manuais de MÃE NOTA DEZ. Embora sem ódio, nosso amor é puritano e/ou samaritano. Atendemos de forma rigorosa e austera aos princípios e costumes morais, e/ou nossa vida é cheia de sacrifícios pessoais e de renúncias ao prazer próprio.

Resultado desastroso, pois essas relações são permeadas de culpa, dívidas e infantilização. Essa mãe não reconhece e quase sempre impede o necessário processo de diferenciação, separação e individuação de seu filho. Vale também para pais, avós, professores e demais.

A armadilha desse conflito de emoções se sustenta, se mantém e se arma cada dia mais na medida em que não nos dispomos ao trabalho de conhecer e reconhecer a convocação e responsabilidade de nossos lugares afetivos e sociais, necessários para a realização de nossos desejos.

“O ser humano é um meteorito pensante. Apenas a partir do atrito com o existente é que seu invólucro incandesce” P. Sloterdijk

Vínculo de menos ódio/ oposição à emoção de ódio

Em nome da paz e da harmonia o sujeito mostra uma atitude manifestadamente amorosa por alguém, ao mesmo tempo em que existe um ódio latente, permeando e montando a estrutura e a dinâmica do vínculo.

O vínculo de menos ódio – qual uma imagem negativa que o espelho reflete – está na forma de amar onde o ódio está sempre presente, embora o sujeito não se dê conta dele.

O sujeito não se dá conta do ódio, ora porque não pode reconhecê-lo em si mesmo, ora porque está refém de crenças e ideais e não pode concebê-lo como sentimento presente nas relações onde também existe amor.

Hoje também é comum encontramos pessoas que se apegam às tradições e aos costumes do passado para garantirem o conforto dos papéis rígidos e formais e se manterem alheias ao pacote de emoções que acompanham o sentimento de amor.

O que esse sujeito gostaria é mandar muita gente à merda, até mesmo aqueles que mais ama, que por bem ou por mal atrapalham sua vida de tranquilidade ou mesmo de indiferença afetiva.

Assim, amam intensamente as pessoas ao seu redor, os estranhos e os mais íntimos, desde que, pela diferença ou pela diversidade não provoquem desprazer, desconforto ou necessidade de pensar sobre eles.

Embora sem ódio consciente e manifesto, seu amor é hipócrita/fariseu. Sob um largo sorriso que sugere alegria e aceitação, rangem os dentes de um sujeito ressentido e melancólico. Ultraconservadores e inflexíveis, se gabam de observarem os mínimos detalhes da Lei como salvadores da moral e dos bons costumes.

Resultado desastroso, pois as relações são permeadas de medo e de ódio dissimulado. Esse sujeito não reconhece e impede o necessário processo de respeito e admiração pelo diferente, sendo protagonista da construção e manutenção de pré-conceitos.

Esse conflito de emoções se sustenta em corpos rígidos e, mesmo que corram maratonas e façam pilates não se livram da angústia de não conseguirem renegar os sentimentos de rejeição, irritação e vontade de fazer sumir seus melhores amigos, filhos, “esposas”.

Mas nem tudo está perdido, nem estamos apenas às voltas com puritanos, samaritanos e fariseus. Bion nos aponta para a possibilidade de, através do vínculo de conhecimento, pensar sobre si mesmo e sobre a relação com o outro. Para ele o pensar surge como uma saída para lidar com a frustração e o sofrimento, desde que o sujeito tenha capacidade para tanto.

Essa capacidade se estrutura desde muito cedo, a partir das primeiras experiências de acolhimento, de continência e de ressonância subjetiva frente à percepção da frustração e do sentimento de ódio, que uma criança experimenta logo que nasce. Bion denominou de reverie a capacidade de uma mãe de captar o que se passa com seu filho, muito mais através de um estado de sonho e intuição do que propriamente através dos órgãos do sentido e da racionalidade.

A capacidade de pensar depende de uma dose de frustração e sofrimento, e da consciência, desde sempre, de que o nascer, o crescer e o viver são experiências dolorosas na sua essência. Por outro lado, o processo de saber sobre nós mesmos e sobre aqueles que nos rodeiam nos permite maior flexibilidade diante da vida, no sentido de desfazer nós e angústias que nos paralisam e nos aprisionam.

Vínculo do conhecimento

É aquele que existe entre um sujeito que busca conhecer um objeto e um objeto que se presta a ser conhecido. Refere-se também ao indivíduo que busca conhecer a verdade acerca de si mesmo e que está disposto a se lançar ao mundo das verdades, das falsidades e das mentiras sobre si mesmo e sobre as relações que estabelece com seus amores e com seus pares.

O vínculo de conhecimento está diretamente relacionado à aceitação, ou não, das verdades, particularmente as penosas, tanto as externas quanto as internas e que dizem respeito mais diretamente aos problemas de autoestima dos sujeitos.

O carro-chefe dos conflitos do vínculo de conhecimento é a capacidade do sujeito em se encontrar com o sofrimento mental e a capacidade de deprimir-se quando se encontra com suas frustrações, limites e vicissitudes da vida.

Exemplos de vínculos de menos conhecimento, que se manifesta através de ataques à consciência e à lucidez, são aqueles onde o sujeito ataca as verdades sobre si mesmo e sobre suas escolhas, empregando a parte irresponsável da personalidade, que projeta no mundo ou no outro as causas de seus erros, fracassos e sofrimentos.

O sujeito pode também construir suas próprias verdades, contrariando as leis da lógica, da natureza e da sociabilidade e a todo custo querer impor aos outros, sua verdade definitiva.

Não é difícil encontrarmos em nós mesmos e nos “amores” a nossa volta, movimentos claros de responsabilização do outro pelas nossas faltas e erros, assim como nossa teimosia em fixarmos em verdades equivocadas e há muito tempo superadas.

Como o vínculo do conhecimento está correlacionado com outras funções do Eu como a do pensamento, da linguagem, do juízo crítico, está diretamente relacionado com nossas verdades, nossas falsidades e a nossas mentiras sobre nós mesmos e sobre nossos laços afetivos.

Quando atacamos, renegamos e nos distanciamos da percepção e consciência de nossas intoleráveis verdades, tanto as externas como as internas, podemos substituir o vínculo de conhecimento por: arrogância, estupidificação e curiosidade maligna.

É quando nos apresentamos como donos da verdade, quando emburrecemos para manter nossa mentira sobre nós mesmos e sobre os outros, e passamos a vida xeretando a vida alheia, inclusive a nossa.

O que nós verdadeiramente gostaríamos é de sermos desprovidos da vergonha de nós mesmos e nos livrarmos de nossas rebuscadas elaborações intelectuais, dissociadas de nossa vida prática.

Tarefa difícil, mas possível!

Para tanto é necessário que cada sujeito saiba e reconheça a sua necessidade, mais íntima de reconhecimento, e se entregue aos vínculos de reciprocidade. David Zimerman, psicanalista brasileiro, introduziu uma quarta modalidade de vínculo, que desde a primordial relação mãe-bebê está ligado às primitivas etapas narcisistas da organização e evolução da personalidade.

Para ele, o universal sentimento de uma necessidade de reconhecimento se constrói e se sustenta pela necessidade de reconhecimento de si próprio que quer dizer conhecer e reconhecer partes do psiquismo que existem, mas cujo conhecimento pode estar recalcado, negado ou distorcido pelos nossos preconceitos; reconhecimento do outro, com suas particularidades, diferenças e necessidades e, portanto, ser capaz de estabelecer uma relação de prazer pelo encontro. Além disso, também faz parte do vínculo de reconhecimento a necessidade de ser reconhecido aos outros e de ser reconhecido pelo outro, que representam a base de nossos sentimentos de gratidão e gentileza e a construção e manutenção de nossa autoestima, respectivamente.

O vínculo menos reconhecimento, assim como o ataque às demandas e expectativas do outro, está muito presente em nossas relações afetivas. –“Eu não estou nem aí com o que os outros pensam ou esperam de mim”, pode ser expressão de uma verdadeira posição subjetiva, que sustentamos frente à solidão de nossa autonomia e das escolhas pautadas pelos em nossos desejos. Mas, também pode ser um engodo.

Quando dispensamos os vínculos de reconhecimento e nos iludimos de que nos bastamos para construirmos nós mesmos, corremos o risco de perder a crítica e nos enganarmos redondamente sobre nós mesmos e sobre nossos “amores”.

Eliana Louvison, psicóloga do CPD

QUER SABER MAIS?

Imagem relacionada

Os Quatro Vínculos: Amor, Ódio, Conhecimento e Reconhecimento na Psicanálise e em Nossas Vidas.
Autor: David E. Zimerman
Editora Artmed

Sete minutos depois da meia-noite
Direção de Juan Antonio Bayona
Netflix

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *